Há um desapreço pelo pavimento tradicional. Continuo a pensar que a melhor maneira de moderar, diminuir, a velocidade dos veículos em meio urbano não é a construção de rotundas nem a colocação de lombas mas sim a utilização de calcetamento basáltico vulgarmente conhecido por macadame. Da mesma maneira para não haver escorregadelas, entorses nos tornozelos ou nos joelhos e tacões presos entre as pedras do vidraço o melhor não é pavimentar com betão, mas sim contratar calceteiros profissionais, desenvolver com as universidades máquinas que possam tornar o trabalho de assentamento menos penoso e mais veloz. Enquanto ainda há calçada portuguesa podemos usufruir da sua beleza e perceber o que representa na nossa tradição cultural. Estes livros como os outros do mesmo autor documentam essa riqueza que distraídos pisamos diáriamente.
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
O calceteiro enamorado.
Era uma vez uma velha rua estreita de casas baixas e antigas onde era difícil circularem em simultâneo carros e pessoas.
Por ser pequena e só ter casas de habitação foi decidido desviar o trânsito para as ruas paralelas mais largas. A rua seria devolvida totalmente ao passeio dos peões e para isso a calçada teria de ser refeita.
Assim foi:
Levantaram as pedras negras de basalto do macadame onde antes era a faixa de rodagem das viaturas; nivelaram o chão e repavimentaram toda a rua com um lençol de calcário branco. Dessa forma algum carro que por necessidade tivesse de entrar na rua para assistir alguma pessoa, ficava a saber que ali era só para peões.
Logo que o tráfego deixou de passar na rua, notou-se uma diferença imediata, deixou de se sentir tanto ruído.
Na rua agora silenciosa onde deixara de se ouvir o estrondo dos motores das motas, camiões e automóveis apenas se ouvia o fino bicar das pancadas certeiras das picadeiras com que os calceteiros íam talhando os cubos brancos daquele mosaico calcário e o tilintar com que os martelos aconchegavam as pedras na cama fôfa de tuvenâ (1).Este trabalho durou alguns dias.
Numa casinha que tinha um quintalinho com flores e muitos gatos ao Sol, morava uma moça muito bonita, cabelo azeviche, olhos castanhos e sardas no nariz. Um calceteiro jovem que andava naquele trabalho de repavimentação da rua simpatizou com a menina desde o primeiro dia que olhou para ela.
Sempre que a via sair para a rua sentia o coração bater mais rápido. O seu coração estremecia no peito tal como o chão estremecia com o bate-bate do maço eléctrico.
Durante aqueles dias o jovem calceteiro e a menina trocaram olhares e sorrisos mas veio o dia em que toda a pedra estava colocada e o calceteiro teve de partir para nova obra noutro arruamento da cidade.
Na manhã seguinte toda a rua estava resplandecente. Tinha um ar limpo e aquele mosaico imenso tornava-a maior. O piso brilhava na sua alvura calcária e reflectia a luminosidade nas fachadas das velhas casas.
Todas as pedras estavam perfeitamente alinhadas milimétricamente encostadas umas às outras e com a mesma altura numa lisura plana de lago.
Os moradores ao saírem de casa paravam à entrada da porta admirando aquela rua que nem parecia a mesma.
Os habitantes das ruas vizinhas e os transeuntes que ali passavam paravam uns instantes comtemplando a nova paisagem com admiração.
A menina do quintalinho onde havia gatos espreguiçando-se ao Sol quando saiu para a rua foi também arrebatada pela beleza daquele passeio novo. Foi para escola e passou o seu dia como habitualmente; ao voltar para casa, apreciando ainda o novo pavimento reparou numa pedra diferente que tinha no caminho bem no meio da entrada da sua porta.
A pedra tinha o feitio de um coração.
A menina percebeu que tinha sido o calceteiro que com ela trocara olhares e sorrisos quem tinha talhado aquele coração de pedra e ali o colocara.
O tempo passou. A menina adolescente cresceu. Um dia mudou de casa e o coração lá ficou. Porém poucos dias depois de estar na sua casa nova não aguentou mais e voltou à velha rua para recuperar uma pedra que fora talhada propositadamente para ela.
O coração de pedra que ilustra esta história foi ela quem mo emprestou. É uma pedra preciosa que um dia um calceteiro enamorado talhou e lhe ofereceu colocando-o a seus pés.
(1) Tuvenâ - "Tout-venant"mistura de pó-de-pedra, areia e gravilha fina cuja granulometria se adequa ao tipo da camada final que resulta na superficie do pavimento. No caso da calçada portuguesa a pedra moída que constitui a gravilha não ultrapassa os 5 mm.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
domingo, 2 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Assinaturas na Calçada Portuguesa
A calçada é a primeira saudação e o primeiro gesto de hospitalidade com que a urbe acalenta os passos cansados do viajante que procura acolhimento.
Esse trabalho exposto ao Sol e à intempérie é a tapeçaria quotidiana que a cidade ou a pequena povoação estende como uma passadeira de honra ao transeunte; por mais humilde que ele seja.
A Calçada Portuguesa é obra de gerações de artesãos anónimos que laboriosamente talham e arrumam as pedras que pisamos sem escrúpulo nem espanto.
Estes calceteiros ensimesmados em posição incómoda, encaracolados no seu delicado labor vão pedra a pedra compondo a urdidura viária da trama urbana: Aqui plantam flores de pedra Rosa Portugal; ali com vidraço preto e branco bordam narrativas históricas; rendilham ponto a ponto memórias e costumes; palavras de arauto e de poeta; desenhos de arquitecto; imaginações de artista. De maneira depurada por vezes, pedra a pedra, derramam estuários lisos de brancura.
O grande Etnólogo Leite de Vasconcelos escreveu que tinha encontrado pensamento filosófico profundo entre pessoas de vida austera e solitária que viviam isolados nas serranias pastoreando gado durante meses sem verem o seu semelhante, esses humildes analfabetos tinham encontrado dentro de si a revelação, as perguntas e as respostas do ser e da existência.
Os calceteiros parecem também eles ter esse tipo de capacidade de reflexão. Talvez que sejam a isto predispostos pela sua genuflexão contemplativa, embalada pelo martelar cadenciado das escodas e das picadeiras. A vénia da sua posição de trabalho concentra o seu olhar no horizonte próximo libertando a visão interior do ínfimo para o fundamental. Assim os detalhes adquirem a capacidade sintética que o símbolo encerra. As assinaturas dos calceteiros são uma voz simbólica composta na pedra que grava a marca de quem executou. A expressão mimética da diferente disposição do pormenor do mosaico torna-se muitas vezes imperceptível aos olhos dos não iniciados. A afirmação e a narrativa estão lá testemunhando com firmeza, mas sem alarde. Este livro mostra as fotografias desses registos: São rosáceas, flores, frutos, escudos, emblemas de toda a espécie. Mais do que a expressão da ordem no caos, são a afirmação de que o Caos encerra em si próprio uma ordem. A ordem que gostamos de chamar Liberdade.
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