terça-feira, 29 de agosto de 2023

Água numa terra árida.

 





























Água numa terra árida.
"Traziam a água de longas distâncias. As fontes perto da aldeia tinham secado. A água dos poços mais profundos era a que restava após anos de pouca chuva. Caminhavam até à fila onde esperavam pacientemente a vez de encherem suas vasilhas. Todo o tipo de recipiente era aproveitado: Bilhas, potes de barro, cabaças, garrafões de plástico de toda a espécie, latas... Os que tinham bestas carregavam-nas com os enormes pneumáticos das rodas de camião como se fossem odres."


sábado, 19 de agosto de 2023

Ao Haroldo de Campos


Como se fôsse possível ele disto saber ou ter alguma curiosidade.



Doíam-lhe as pontas dos dentes,

uma nevralgia comum

nos que combatem o escorbuto

comendo limões à dentada.

-A piorreia vai-lhe levar os dentes-

Disse-lhe a periodontologista

Numa das raras aparições

em que não entregara a consulta à higienista

para passar no ginásio de “fitness”,

ou fornicar com o amante

-Falta de limpeza! O sr. não lava os dentes?

-(…)

-Pelo menos não os lava como deve ser!

-(…)

O senhor fuma?

-(…)

-Tanto tártaro… Pedra; sabe!

-(…)

-Mas afinal o que é que andou a comer?...

-(…)

-Bebe muito chá?

- (…)

Curcuma! Dir-lhe-ía

se possível fôsse responder,

boca escancarada;

de um lado a fresa pneumática,

de outro a cânula de aspiração de líquido.

 

A estrutura do poder é essa

Provocar a ansiedade. Julgar.

Causar o sofrimento.

A sugestão da dor

pela sensibilidade antecipada da dor.

Implantar uma raiz de mêdo.

Deixar uma marca indelével:

Uma cruz numa porta

que se receou apagar

ou uma estrêla que se cose na veste

com a côr amarela

com que a açafroa tinge o aço.

 

Desistiu das consultas de periodontologia

quando uma dor violenta

o levou de urgência a um dentista.

Após radiografias

e dois pareceres médicos independentes

o estomatologista extraiu-lhe 4 dentes sem cáries

que tinham ganho quistos nas raízes.

Decidiu nesse momento inconsciente

morrer desdentado, velho,

contra a opinião das amigas

que lhe palpavam o “look”. 

Um sibilar novo alterara-lhe a loquacidade, 

devido a falta dos incisivos 42,41,31 e 32.

Passou assim a expressar melhor

a fundamentação do desprezo

pela ignorância dos deuses médicos

dessa outra especialidade clínica.






sexta-feira, 21 de julho de 2023

Resposta a Justine

 Era um Programa de Rádio chamado “Café Concerto” feito por Maria José Mauperrin e Aníbal Cabrita. Passava entre as dez e a meia noite.  O tema era Céline e também o “Viagem ao fim da Noite”. Vários entrevistados passaram nessa semana.

Lembro António Lobo Antunes que escreveu uma carta à qual Céline respondeu.

Lembro Jorge Listopad que procurou o Dr. Destouches como médico numa emergência domiciliária para as suas filhas gémeas ainda pequenas e febris, mas sem sucesso, devido à recusa de Céline em deixar os seus cães para atender as meninas de Jorge Listopad.

Nessa altura o amigo de um amigo que estava na Suiça tinha começado a ler Céline e o deslumbramento era grande. 

A Ulisseia tinha editado a 2ª edição da tradução de Aníbal Fernandes.

Comprei o “Viagem ao Fim da Noite” em Lisboa, numa livraria que ficava no Largo da Trindade e que também era alfarrabista, foi caro custou-me 600 escudos. Eram 18 horas e tinha começado a pingar. Desci até ao Cais do Sodré e fui apanhar o autocarro nº 1 que fazia o percurso Cais do Sodré-Charneca. Eu morava em Camarate ali junto à Charneca do Lumiar.

Cheguei a casa com a chuva contínua e algo intensa. Comecei a ler e não consegui parar até que chegou a manhã. Choveu sem parar toda a noite. A luz do dia trouxe o anúncio de cheias e inundações em toda área da cidade e seus arredores.



















O "Morte a Crédito" valerá a pena ler. Não o tenho comigo para digitalizar a capa. 

os livros de Céline