sábado, 31 de março de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

O COMPORTAMENTO SENHORIAL - A TIGELA DE SÔPA

"A caridade daquela casa era uma bênção, ao contrário de outros Solares da região, até a comida esmolada era avonde.
O palafreneiro retirava a grande tigela da palamenta dos mastins e nela o monteiro ou a mulher vertiam o caldo que a custo duas pessoas conseguiam comer.
Abençoavam todas aquelas léguas de caminho que faziam para pedir trabalho.
Acabada a jorna ceavam pão e um pedaço de toucinho alto; alvo como um queijo fresco e na grande malga onde tinham comido o caldo do jantar botavam-lhes vinho tinto sem parcimónia. O vinho que frutificara naqueles chãos por eles acartados e sustentados pelas muralhas construídas com a pedra que partiam e arrancavam da serra.
Naqueles dias de fome em que nem a sêco se conseguia trabalho, louvavam a Deus por tal saciedade.
Desciam ao povo cantando alegremente numa romaria feliz e agradecida, confortados pela temperança com que o vinho lhes invadia a alma e lhes afagava o corpo cansado, consolados com o repouso da noite que os envolvia."

 O COMPORTAMENTO SENHORIAL - Duarte Pinto de Tavares

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobra do Almoço

O COMPORTAMENTO SENHORIAL - A SOBRA DO ALMOÇO.

"Ao almoço sobrava sempre comida, a que ficava nos tachos e panelas e a que sobrava dos pratos por ter sido segregada pela inspecção minuciosa dos comensais. A irmã mais nova retirava tudo o que fossem peles, películas e gorduras; o irmão mais novo tudo o que fosse carne agarrada a osso ou peixe com vizinhança de espinhas. Assim nacos inteiros eram caridosamente vazados para dois baldes, logo recolhidos pelos maiatos que os levavam e deles faziam conduto para acompanhar a farinha de pilão cozida que preparavam em panelas suspensas sobre brasas."



 "O COMPORTAMENTO SENHORIAL" Duarte Pinto de Tavares

sábado, 24 de março de 2012

Nau Cantorinêta

Acima, acima gajeiro
Acima ao tope real
Vê se vês o meu dinheiro
No meio do laranjal

Vejo um espantalho foleiro
E um coelho infernal
Mas o vosso dinheiro
Desse não há sinal




 


terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAVERA

John Coltrane - A kind of Spring - Uma das minhas coisas (MÚSICAS) favoritas

MÁSCARA

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.



in "Tabacaria" Álvaro de Campos.

sábado, 17 de março de 2012

António Maria e Dolores Duran interpretados por Clara Nunes e Paulo Gracindo.

Hoje passam 91 anos sobre  o dia do nascimento de Antônio Maria Araújo de Morais



Da crónica "Oração", escrita em 30-03-1954:


 "Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins — isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci — raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e "Navio Negreiro", de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho — de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: "oh!"..."comment allez vous"? (...) de um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert; está vendo o retrato dos meus 20 anos? de lá para cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja..."

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quando o dia acaba as mais pequenas coisas adquirem sombras de tamanho colossal.

Uma Câmara Municipal dum pobre país decidiu comercializar produtos locais com o nome do caudilho autóctone que chegou a ditador nacional.



Além de espátulas flexíveis para rapar cremes, molhos e fluidos moles, acrescente-se a possibilidade para o artesanato local: vassoura hipócrita, piaçava ditador, capacho tirano, varinha mágica torturador, faca homicida…Falando de produtos alimentares: vinho martelo, sardinha para três, pão roubado, bola da fome…


Este empreendedorismo institucional não se passa nem em Cuba, nem na Venezuela, nem na República da Geórgia. Não! É mesmo aqui neste pobre país. O que é preciso é empresariar.

Vira-vento de gôrro e mascarilha leva a bandeira e o catavento da pandilha.

quarta-feira, 14 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

Hoje lembrei-me de Anna Smirnova-Marly






BEATRIZ CUNHA - A MESA DE ESCULTURAS

Em Escultura os processos de concepção da peça final por cada artista variam. Há artistas que desenham e esboçam antes de partirem para a abordagem tridimensional outros coleccionam objectos encontrados que montam ou simplesmente destacam do contexto habitual; outros ainda com mais patrocínio ou desafogo financeiro, trabalham com verdadeiras indústrias de executantes especializados.
Alberto Giacometti trabalhava tão exaustivamente no processo de retirar o excesso, na modelação das suas figuras que se não fosse o seu irmão Diego a levá-las para o fundidor hoje poucas restariam.
Alexander Calder que foi convidado para fazer uma exposição numa galeria importante. Quando apareceu ao galerista pouco tempo antes da data da inauguração sem qualquer bagagem adicional, este entrou em pânico. É que Calder tinha-o informado que as esculturas viajavam com ele. "-Então e onde estão as peças?" terá perguntado. O corpulento Calder com o seu sorriso de criança traquinas mostrou um rolo de arame que retirou da sua bagagem de mão e sacando um par de alicates do bolso do casaco terá dito "Aqui estão!" Calder com o arame construiu esculturas que são verdadeiros desenhos suspensos no espaço.

Beatriz Cunha faz muitas vezes pequenos desenhos muito limpos com linha clara e decidida. A volumetria acontece numa segunda fase com minúsculos modelos de terracota em que o rigor do desenho inicial é reproduzido de uma forma espantosa. Muitos destes modelos se perdem pois a escultora opta por não os cozer e devolve-os para o contentor plástico com água onde se reciclam as sobras do barro que ficaram da modelação. Das pequenas peças que vão a cozer Beatriz aproveita uma parte ínfima para realizar em pedra, bronze ou madeira. As peças que se tornam modelo e adquirem dimensão na pedra são assombrosas pelo meticuloso rigor com que Beatriz esculpe numa escala gigante, mantendo a proporção exacta do seu plano inicial sem utilizar os métodos tradicionais de transposição de escala. É um fenómeno notável a forma como a sua inteligência, o seu olhar e as suas mãos tem esse dom da medida certa e da proporção justa.


A mesa que aqui se vê contém os modelos escolhidos para serem cozidos.