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sábado, 18 de abril de 2020

Na Idade Média os leprosos eram obrigados a usar chocalhos, relas, cega-regas e zaclitraques.

 Hoje a Idade não é Média. Parece que é inferior e os bárbaros com tecnologia usam a resposta rápida dos códigos QR (Quick Response) nas aplicações dos telemóveis para identificar e segregar. 
É como se continuássemos ainda na plataforma de Auschwitz, as locomotivas chegam com suas carruagens de transporte de gado e as pessoas que delas saem, sobreviventes da viagem, são separadas pelos médicos e seus auxiliares: Para um lado os considerados fracos que vão ser mortos imediatamente por gaseamento; para outro os que vão trabalhar até à exaustão.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Giánnis Ritsos



Giánnis Ritsos foi um incansável e destemido lutador. Venceu a tuberculose; resistiu ao fascismo e aos invasores armados; batalhou contra a tirania; sobreviveu à guerra civil; ao universo do campo de concentração e do cárcere político; e viu ainda o fim da ditadura.

Dele deixo aqui um poema esperançoso, de uma ironia fina e alegre.

Catarse 

O pássaro poisou na rocha. Olhou à volta
com os seus olhos verdes, rutilantes.
"Tuín, tuín, tuín", disse. E sabia o que dizia.
O caçador sorriu, era ao pôr do sol.
As duas nódoas na camisa não eram de sangue.


Prefácio magnífico de Custódio Magueijo que fez a selecção e a tradução.





quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Céu Costa e um desenho meu.

Céu Costa radiosa alvura, fulgor do azul celeste. Memória indelével, olhar seguro, entendimento fraterno, corpo que levita e se transmuta.


Elisa Scarpa e um desenho meu.

É uma artista delicada e gentil. Diz que gosta de arquitectura e de sapatos e é esbelta como o olhar com que detalha o invisível. O seu sorriso é afável e com a sua palavra constrói mundos por vir. Não pisa ramos verdes nem calca ramos sêcos, move-se silenciosamente com graça clara.



Maria Azenha e um desenho meu.

Voz clara e expressiva Maria Azenha poética diz e declara. Como ela brilha e com ela irradia resplandecente a poesia.





NÃO ROUBEM!

Chamou-me a atenção a intensidade de cor nas caixas plenas de laranjas. Uma caixa de bananas, alguns embrulhos e sacos de papel. Coisas usadas como um candeeiro com abat-jour e uma panela de pressão. 
No abrigo daquele pequeno corredor de portas fechadas, um letreiro avisava em português e inglês:
                         ATENÇÃO            
                 ESTAS COISAS SÃO PARA PESSOAS SEM-ABRIGO
                POR FAVOR NÃO ROUBE! OBRIGADO.   

Quem descêsse o par de degraus e se recolhêsse naquele canto virado para as caixas de fruta deparava ainda com mais outro letreiro idêntico.
Despertou-me então a memória. Naquele exterior de muros altos, encerrado por corredores amplos e desertos. As paredes brancas, tapando claustros ajardinados e átrios vazios. As amplas salas vedadas por sólidas grades de ferro lembraram-me:

 
A fruta derramada pelos caminhos ornados por todo o tipo de árvores, arbustos e trepadeiras:
Macieiras, figueiras, ameixoeiras, pessegueiros...
Orlando ravinas e declives, os castanheiros, as avelãzeiras... 
Limitando propriedades, as videiras, os marmeleiros, as cerejeiras, as nogueiras... 
Eram essas árvores de fruto e de sombra, o consolo dos animais silvestres que passavam em bando ou em rebanho. Eram petisco para a pausa das vacas que vinham do monte ou dos burros que regressando a casa puxavam os carregos de mato para o quinteiro.
Eram esses frutos a dejua de peregrinos e romeiros, os de Santo Estêvão, os de Santo António, os de Santa Eufémia. 
Também por ali nunca ninguém ficara desabrigado ou sem caldo que lhe matásse a fome e o frio da noite.
A tradição da hospitalidade recolhia tanto o pedreiro que ía cavar um poço ou abrir uma mina, como os jornaleiros a caminho do sul, ou a caravana dos cesteiros que vinham até ao rio colher junco. 
Muitas vezes sabia-se quem eram os forasteiros; se eram vindimadores, se eram negociantes, se era o almocreve procurando vivo, se o capador... mas nada se perguntava a quem não quisesse falar.
Além disso as portas tinham aldrabas com tranquetas de madeira e nunca me apercebi que quem comêsse fruta na passagem fosse avisado para não a roubar.