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segunda-feira, 15 de maio de 2023

"A Civilização é a verdadeira Barbárie."



Do livro de:

Ocean Vuong - "On Earth We're Briefly Gorgeous"









Civismo, Urbanidade - Compressão dos passageiros dos comboios japoneses nas portas das carruagens sobrelotadas por funcionários uniformizados e de luvas brancas.













Ter Civismo, Urbanidade, Civilidade, pertencer à Civilização é aceitar viver livre como a sardinha de lata, a liberdade para ser aconchegada de forma a que outra possa ser acomodada evitando espaço vazio.




quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

sábado, 12 de setembro de 2020

A memória e o tempo

são crianças brincalhonas que se entretêm no jogo das escondidas dentro desse grande armazém de adereços que é o cérebro.
A jornalista dizia então que era um "pau de dois gumes" e eu lembrei-me que bem poderia ser uma "faca de dois bicos".





sábado, 23 de novembro de 2019

HERBERTO HELDER

"Escrevi porque tinha um problema de ódio a resolver."                                                                                                            Herberto Helder



Ah este ódio com que amo a humanidade!
...e a necessidade dos livros onde ela se verte;
não, não é um problema de nervos, nem de ódio 
que me leva a escrever, mas sim a janela fechada,
as arestas dos varões quadrados da grade de ferro
cravadas na carne das mãos e da cara,
a visão periférica que mantém o medo na distância.

Não serás alguém grande, mas poderás sempre
escolher a fuga das alturas ou a fragilidade do papel
que embrulha o pão e se rompe com o lápis H
Serás fumo de chaminé no ar 
ou breu de mascarra sobre o cotim azul.


Não serás alguém grande, -disseram-me-
descolaram o remate do cartucho de meio quilo
e alisaram os vincos do papel grosso
entregaram-me as pontas de lápis 
a escaparem pequenas das mãos adultas grandes
e permitiram que desenhásse no lado de fora, 
sobre o riscado vermelho,
porque dentro pousava-se o peixe acabado de fritar
e o desenho esvaía-se na nódoa 
esmaecido pela gordura
para depois se perder com o jornal 
da forra do balde do lixo.

poderás sempre escolher a fuga das alturas 
ou a fragilidade do papel que embrulha o pão,
o papel que se rompe e se rompe com o lápis nº4
O que queres ser? Fumo de chaminé no ar? 
ou mascarra de breu sobre o cotim azul?

Então escrevi mas o que fazia eram desenhos
que gritavam histórias. 
pedia livros e que mos lessem
mas não havia livros porque os livros 
para nada servem.

Ah este ódio com que amo a humanidade!
e a necessidade dos livros onde ela se verte

                                                                                                  Em memória do HH






sábado, 30 de abril de 2016

As trombetas.


Passámos aquela fase de inscrever façanhas num livro pateta de registos: O mais comprido o mais pesado, o mais numeroso, o que leva mais ovos, o que...
Agora subiram de esparrela e toda a coisa quer ser património da humanidade ou pelo menos património imaterial da humanidade. Comidos os bolos, aos tolos ideias para candidaturas parvas não faltam. 
Nesta terra superlativa à beira-mar em que o peixe é o melhor do mundo, existe a mais bela praia e a maior onda, a ponte mais bonita e a mais comprida, o melhor queijo e o melhor presunto; o melhor azeite e o melhor folar; a melhor morcela e a melhor linguiça... tudo, tudo, regado com o melhor vinho, melhor vinho do mundo é claro... Fica aquele picozinho a azedo do "rio que corre pela minha aldeia" que o Fernando António Nogueira dos tintos e dos cheios bolsou genialmente pela boca do Alberto.


 Perguntava no outro dia um neoliberal assumido num jornaleco que se diz observador porque é que o vinho português muito bom e muito barato é tão difícil de encontrar à venda na Escandinávia de onde esse neoliberal é originário. Lembrei-me de um personagem alarve de um filme de entretenimento que perguntava porque é que os chocolates de nomeada são da Suíça ou da Bélgica e nunca dos países onde o cacau e o açúcar são produzidos. Fiquei a pensar que é por causa das trombetas. Sim! Por causa das trombetas, das trombetas e dos exércitos que elas anunciam. O som das trombetas tem aquele encanto épico, o som cavo das mais graves é avassalador e revolve as entranhas como a pancada mais violenta no tambor surdo. Sem trombetas os pergaminhos de nada servem, a multidão não acorre nem se impressiona se não houver trombetas. Vivemos na era do mercado global, nunca como agora as trombetas e os megafones foram tão importantes.


 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Tempo bissexto.



















O tempo é um furtivo sedutor que explora a nossa avidez, de alguma maneira desejamos aquilo que nos dá sem reparar naquilo que nos tira.