sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Vimeiro, salgueiro? -Não é um vimeiro mas lembrei-me deles.

 



Cortam as hastes que rebentam dos vimeiros. Com elas cintam molhos de grelos ou atam videiras. A flexibilidade do ramo recém-cortado comporta-se como uma corda ou um cabo de grande resistência.

Os vimeiros nascem onde há abundância de água e é natural encontrá-los junto aos rios. As suas raízes servem também para segurar os taludes das margens consolidando o percurso do leito.

Com os vimes é possível fazer toda a espécie de entrançado que vai desde os cêstos, aos móveis, e ao empalhamento de vasilhas.

A utilização dos vimes deve ser pré-histórica e encontra registo nas civilizações antigas desde a China à Bacia do Mediterrâneo. Os chineses antigos já ferviam ramos e folhas para curar feridas, o ácido acetilsalicílico que constitui a “aspirina” provém do salgueiro, daí o seu nome a partir do nome latino da planta Salix.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

António Rosado toca os cinco concertos que Beethoven escreveu para piano.

A integral dos concertos para piano de Beethoven, será tocada pela segunda vez no teatro São Luiz, após a sua primeira apresentação no Teatro Luísa Todi de Setúbal.
É uma empreitada gigante que se desenvolve ao longo de tês dias.
De alguma maneira descreve a construção mental envolvida na transposição do Beethoven de um período convencinalmente apelidado clássico para o Beethoven do período romântico.
Beethoven encarna uma revolução mas ao contrário do final habitual das revoluções -Cada Revolução termina com o seu Napoleão- quando ouço os quartetos de cordas ainda sinto que é música contemporânea. Beethoven ainda é a transformação do espírito, e a esperança.

António Rosado é um trabalhador incansável o seu repertório assim o demonstra por se estender por tantos compositores e abranger tantas épocas diferentes. Toca o que os especialistas consideram ser o mais árduo de ser tocado. Toca forte o que deve soar forte, mas o que é verdadeiramente mais difícil, consegue tocar delicada e suavemente o murmúrio das notas que devem ser apenas sussurradas como um segredo que se transmite ao ouvido.




segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Viva a Républica! Republica digo.


Letra: Henrique Lopes de Mendonça Música: Alfredo Keil
Data: 1890 (com alterações de 1957)


Orquestra Sinfónica Portuguesa; Coro do Teatro Nacional de São Carlos; Elisabete Matos, soprano e direcção de João Paulo Santos.




domingo, 4 de outubro de 2020

Ai hoje é o dia do animal?!


 



Amo o Porto!

 


Amo o Porto!

 Agora diz-se amo, em vez de gosto, como se amar fosse coisa banal. Num mundo tão carente de amor é compreensível que assim se utilizem as palavras sem que se pense muito nos conceitos que implicam. O grau com que se exprime o apreço por um pão com fiambre é o mesmo com que se descreve a ligação a uma pessoa ou à terra natal.

Mas à parte desta consideração sempre amei o Porto. O primeiro despertar para este sentimento deu-se devido à beleza de uma aguarela que mostrava o Douro sobre a Ponte D. Luís. Depois a ligação foi intensificada por causa de um filme que correndo imagens a uma velocidade estonteante provocou em mim uma espécie de exaltação. O filme era do Manoel de Oliveira e chama-se “Douro, faina fluvial”.

A primeira vez que cheguei ao Porto tinha 13 anos. Vim numa camioneta que me trouxe de Cinfães até uma garagem da qual se avistava a Torre dos Clérigos no topo da rua.

Nessa primeira visita, a chegada foi pela hora do almoço que ía já avançada, a velha camioneta de carreira trouxera-nos com algum atraso para o que íamos fazer. Almoçámos ali ao lado da garagem numa bela casa de pasto. Perguntámos que comida estava feita e pronta a servir. –Tripas… Sim! Disse eu. À moda do Porto, é claro! A minha surpresa foi grande e a expectativa gorada. Afinal a refeição de nome exótico era o que a minha mãe cozinhava em casa chamando-lhe dobrada, ou com mais detalhe, dobrada com feijão branco para a distinguir da dobrada com molho de tomate.

O almoço foi pago com uma nota de cem escudos que tinha no rosto a efígie do Camilo Castelo Branco e no verso uma magnífica gravura com a legenda “Porto meados do século XIX”. A extraordinária gravura penso que mostra a Rua do Loureiro, e apesar da miniatura da sua dimensão captava a atmosfera dos dias soalheiros que acordam com uma neblina matinal que só se encontra nas cidades ribeirinhas junto ao mar. Esta gravura, enquanto a nota existiu em circulação, foi como uma janela aberta no meu imaginário para uma cidade fantástica a que só muito mais tarde voltaria e em que pouco permaneci, devido a visitas rápidas por algum motivo específico. (1)




Desta vez que me pude demorar mais no Porto também cheguei pela hora do almoço. Ao estacionar, avistei do outro lado da rua a “Rosa das Iscas”. Na lousa dos pratos do dia estava gizado “Tripas à Moda do Porto”. E assim foi! Guloso, ainda perguntei pelas Iscas. Mas o jovem simpático respondeu-me que não. Que isso era noutro tempo. Mas como é possível uma casa que tem o nome Rosa das Iscas não ter iscas? Não é possível. Por isso imaginei que ele estivesse a brincar comigo.

Encriptamento e subjectividade à parte, nos dias de hoje ao Fernando Pessoa, ou melhor dito, ao Álvaro de Campos não lhe serviriam “Dobrada à Moda do Porto” fria (2). Tal como não me serviram a mim. Mas cheguei à conclusão que se quiser comer uma boa dobrada terei de ser eu a cozinhar como aprendi com a minha mãe. Receitas há muitas: Tripas; Tripas à Moda do Porto; Dobrada com feijão branco, etc. parecendo variações do mesmo, são comida diferente, mas isso é outro assunto.




 

 

 

 

(1)    Sei agora graças ao trabalho de Maria Teresa Nogueira de Morais da Cruz Pinho “Luís Filipe de Abreu e o desenho das notas de escudo do Banco de Portugal” que a maquete inicial foi a de João de Sousa Araújo sobre uma vista da cidade do Porto, nos meados do século XIX, litografia de Louis Haghe, com desenho de George Vivian. A imagem escolhida para ser reproduzida na vinheta desta nota, tem o título “O Porto visto do Convento de freiras de S. Bento”.

 

(2)   Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Dobrada à Moda do Porto

Álvaro de Campos - Fernando Pessoa