quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A velhice nasce na orelha





A velhice nasce na orelha

Uns pelos na posterior da hélix

Outros na concha

Quando partem do trago

é a solidão que floresce

Já não se olha o espelho

Dá que pensar

Aquele tufo hirsuto

Primeiro estamos todos

Vivos, alegres, saciados

de copos erguidos

depois só umas fotografias

recusando o contentor de lixo

como aves que partem

para não voltarem

no São Martinho

O Inverno é um ser profundo

De nevoeiros cerrados

E musgos verdes

passo a lâmina pela hélix

em espiral descendente

desde o ramo até ao lóbulo

na profundidade da escafa

a lâmina escanhoou a derme

ouvi claramente antes de ver

o indicador sanguíneo

Faço a barba sem espelho

após a chuva quente

no final da lavagem

A sua barba é muito rija

e a sua pele muito fina!

Disse o barbeiro de olhar aflito

enquanto passava

a pedra de alúmen

enxugando-me a cara em brasa

com a toalha antes aquecida

recolhendo aquele sudário

para que eu não o visse

mantendo a horizontal

da cadeira abaixo do espelho.

Quando o barbeiro

que usava a navalha

na escovinha da nuca

me rapou a cara

não cresciam crespos

pelos na orelha.



domingo, 25 de dezembro de 2022

olhar


 

Se o Menino Jesus viesse pôr prendas no sapatinho: Sein und Zeit" - Martin Heidegger - Edição em Alemão e Português - Tradução e organização de Fausto Castilho.

 

Sein und Zeit foi publicado em 1927. É um livro difícil seja em Alemão ou em Português. Esta é uma edição Bilingue e um caso único na tradução do texto original. Leio Heidegger como um pugilista; de punhos erguidos, fechando a guarda, esquivando, evitando o impacto, querendo bloquear o golpe, procurando uma brecha para atacar. Aceitei o desafio de ler Heidegger por causa de George Steiner. Menos por causa de Hannah Arendt.

Heidegger desagrada-me como uma partitura de música que não sei ler. Quando soa a música da partitura inspiram-me algumas notas enquanto outras me causam estranheza, enfado e mesmo repulsa. Tal como não sei explicar porque não gosto de Schuman ou de Brahms, não sei explicar porque não gosto de Heidegger e os motivos que me ocorrem devem-se mais às suas opções éticas, políticas e sociais do que à sua complexa linguagem metafísica.

Sobre Fausto Castilho que desde 1949 trabalhou na tradução e organização desta especialíssima edição saída em 2012 da qual exponho a reimpressão de 2020 destaco a dedicação, o trabalho persistente, apurado e pioneiro. Fausto Castilho faleceu em 2015.