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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Viva o Santo António

 
















Hoje é Dia do Fernando de Bulhões, para alguns o Fernando Martins que adoptou o nome de um Santo Anacoreta que terá vivido num deserto no Egipto onde passou para além das tentações do Mal durante mais do que os 40 dias que o dito Cristo terá sofrido. Santo Antão do Deserto ou Santo António do Deserto (Janeiro 251 - Janeiro 356) terá inspirado o Santo António de Pádua que nasceu em Lisboa (15 de Agosto de 1195 – 13 de Junho de 1231). Quando aqui em Lisboa e em Portugal a devoção popular constrói uma narrativa que o descreve como reparador de bilhas partidas e casamenteiro de mulheres maduras talvez não ignore que ele foi um Doutor da Igreja, mas prefira metafóricamente referir a particularidade que lhe é atribuída de ter interferido para defender prostitutas e bem assim lhes restituir a dignidade de mulheres inteiras que à semelhança das bilhas concertadas voltam a poder transportar a água potável fonte de vida.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Fernando Pessoa nasceu no dia de hoje: Fernando António ganhou seu nome como uma predestinação.

Chamaram-lhe Fernando porque Fernando se chamava Santo António antes de ser Santo.
Chamaram-lhe António porque esse era o nome que o homem chamado Fernando de Bulhões que viria a ser conhecido como Santo António escolheu como voto de transcendência na sua fé. Fernando de Bulhões queria seguir o caminho que antes dele um Santo de nome Antão (António) fez, ao resistir ao deserto, à privação e à agonia do Ser. 


Fernando Pessoa fez também o seu caminho atravessando o deserto. Teve os seus delírios, as suas dores e privações.
Foi asceta e místico como os patronos do seu nome. 
Como Santo António morreu antes de tempo, e coincidentemente nas causas: Morreu Santo António de hidropisia, talvez por doença no fígado ou no pâncreas. Morreu Fernando Pessoa de crise hepática ou de pancreatite.

Quando comecei a ler Fernando Pessoa pelos meus 16 anos, a leitura da sua poesia não era ainda uma obrigação escolar, o seu estudo estava reservado para mais tarde e só para quem ía para a universidade para os cursos de letras. 
O interesse pela obra revelou-se livre dos constrangimentos da regra e da interpretação normalizada. 
Descobri Fernando Pessoa à medida que me ía descobrindo na minha adolescência, e assim com ele cresci.
Ligação tão forte levou ao interesse pela imagem da figura humana do próprio poeta, pela imagem de uma pessoa com tantas personas. Depois me interessei pela data de nascimento, pelo tempo em que viveu, pelos anos que viveu. 
Não me esqueço até hoje do espanto e da impressão de dó que tive quando percebi que uma das fotografias que eu conhecia bem, tirada no seu último ano de vida, mostrava um homem que tinha 47 anos e no entanto, um homem precocemente envelhecido a quem eu tinha atribuído antes 60 ou 65 anos. 
Até hoje faz-me impressão essa fotografia e sempre que pinto ou desenho a sua imagem, é a imagem desse último ano, como se assim esse ano pudesse ser prolongado eternamente.



Santo António nasceu com o nome de Fernando de Bulhões.

Eu gosto do Santo António e da alegoria que é o Sermão de Santo António aos peixes de Arímino como relata o Padre António Vieira. É claro que Santo António não é para nós ingratos de Lisboa o Doutor da língua Bendita que arrependia hereges e convertia pagãos. Para nós continua consertando bilhas, encontrando objectos perdidos, regulando namoros, arranjando casamentos. Coisas pequenas com a dimensão que os eruditos acham ser a dimensão do entendimento popular.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Ikezukuri - Santo António - Solo Bradley Manning - ......................... O grau de sofisticação de uma cultura pode ser também indicador do grau da sua mais aviltante barbárie.




E sonhei com Santo António
Sentado no restaurante japonês
Olhando a correnteza de bons bocados
Em pratinhos alinhados à vez
Circulando em transportador.
Os pagãos alheados no esplendor
Do colorido bufete
Esticavam o ramalhete
De dedos com sofreguidão
Santo António desolado
Olhando todo aquele sashimi
Ergueu as mãos em oração
“-Senhor, tanto peixe fatiado,
Quem ouvirá meu sermão?”
Em resposta o banqueiro-mor
Brandiu no ar a catana
E gritou: Ikezukuri (1)
Gêlo na cataplana
Vamos petiscar o frade cantor!
Santo António que comia algas
E sementes como as aves
Foi pinçado em malgas
Com pauzinhos pelos bichos
E de suas palavras suaves
Só sua língua sobrou dos lixos. 


(1) Ikezukuri - requinte culinário de uma terrível sofisticação e crueldade em que há vivissecção de animais e o seu consumo imediato; forma de preparação de pratos culinários japoneses com animais que são cortados vivos e por vezes comidos ainda vivos debatendo-se na sua agonia.
Crueldade idêntica é utilizada na nossa cultura com a preparação de  mariscos, crustáceos, e dos tão populares caracóis que são cozidos vivos.


Tomando como referência as palavras de Mahatma Gandhi: A grandeza de um país e seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata os seus animais. Podemos a partir delas pensar que a maneira como são tratados os animais é uma forma de avaliar como poderão ser tratados os seres humanos.
 Há ainda hoje um tabú na sociedade japonesa relativamente a esses modernos "desastres de guerra" que foram as experimentações ditas médicas e bioquímicas em populações civis e prisioneiros militares no período da ocupação da Manchúria e em que se chegou à vivissecção de seres humanos. Não serve isto para julgar diferente a sociedade japonesa daquele tempo. O fenómeno não é caso isolado nem pode servir para caracterizar individualmente.Não nos podemos esquecer de situações semelhantes que se passam ainda hoje um pouco por todo o lado onde existem situações em que se institucionalizam o Estado da Guerra e a Servidão. As populações perdem o seu direito à nacionalidade, à cidadania, à humanidade e nada mais são do que estatística, danos colaterais, …vida nua. Basta lembrar a denúncia feita por Bradley Manning cujo julgamento está presentemente a decorrer.
Mas dos animais e das experiências que com eles se fazem e do sofrimento que lhes é imposto em laboratórios médicos e granjas de produção industrial nem consigo falar.


O grau de sofisticação de uma cultura pode ser também indicador do grau da sua mais aviltante barbárie.