quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Adivinha
Qual é coisa qual é ela,------------------------------------
Com seis patas fora do lago---------------------------------
Dois gordos aqui eu trago-----------------------------------
Se um fala língua estranha----------------------------------
Outro come mais que piranha.--------------------------------
O que é? ---------------------------------------------------
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O tempo das Felosas
O tempo das felosas está a chegar ao fim. Hoje avistei as primeiras quatro andorinhas voando em círculos a grande altura. Brevemente chegará a Primavera. A toutinegra ficará mais algum tempo. Os melros este ano parecem muito menos que o ano passado. O ano passado foi o ano de abundância de melros.
a toutinegra
a toutinegra
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
sábado, 14 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
O vinho bom é aquele que me sabe bem.
O livro de Jonathan Nossiter que continua o filme de 2004
Os Tios da Moda ganharam a vaidade de fazer vinho. Agora arrogam-se como enólogos e mais do que isso "wine makers".
A língua do "marketing" é tão sintética que não há expressão em Português!
Na nossa pobre língua tinha de se dizer o quê, chamar-lhes como? Vinicultor?... Nã!!... Viticultor?...Vitivinicultor?... Nada disso. Produtor de Vinho?... Vinhateiro?... Não!!!...
"Wine maker" é mesmo Marteleiro?!
Pois têm a mania que o vinho bom é o que eles fazem. E principalmente porque pagam por uma garrafa o preço que vale o pipo. Aplicam ao vinho as regras do mercado dos papéis. Isto é, as regras da especulação e do faz de conta.
Este dito mercado e a sua suposta sofisticação, tem muito a ver com as quermesses das aldeias em que é leiloado um enchido e aparece sempre uns bilontras armados em ricos que se juntam e disputam essa presunção inflacionando o valor da farinheira além do valor da saca de farinha, deixando o remediado apreciador de farinheira com grêlos a comer só grêlos com batatas e cebolas cozidas, pensando que afinal é tudo a bem da caridade das obras de caridade da confraria dos órfãos e dos irmãos desvalidos.
Curioso é que um dos senhores que escreve para as revistas e faz opinião, tem gabinete de prova na sua própria casa. -Tudo isto se vê no filme "Mondovino" do Jonathan Nossiter. O filme é extraordinário por nos revelar estas personagens e a fragilidade das suas encenações grandiloquentes em que o rei vai nu. - Quem não viu o filme pensará que o gabinete de prova é tipo uma sala laboratorial. Ou pelo menos uma sala preparada para provar vinho, limpa e asseada e sem pulverizações de perfume no ar. Pois a sala deste senhor, bilontra, "opinion maker" é uma espécie de sala de estar cheia de tralha diversa onde enquanto ele vai tirando umas fumaças do seu charuto, os seus cães flatulentos vão largando as ventosidades fedorentas criando um ambiente de excelência (excelência-uma palavra tão na moda) em que se classificam de zero a cem, os vinhos do mundo. O vinho não é um produto natural, no sentido em que só as uvas são. Os vinhos sempre foram o espelho da cultura dos seus produtores e do chão que o origina. Este conceito de "terroir", de chão, tão caro aos franceses existe na nossa língua exactamente com a mesma carga ecológica sinónima. Cada pedaço de chão é um biótopo do biótopo maior que é o ecossistema onde se insere uma vinha. Por isso à vinha faz falta o souto que a abriga do vento norte, as fragas que acumulam a temperatura e impedem a formação de geada e até as toupeiras que fazem os túneis por onde é drenada a água excessiva. Em cada vinha há vários chãos ao ponto de haver alguns tão pequenos que se reduzem a poucos pés de videira. A esta base que alguns definem como estrutura juntam-se as castas, juntam-se as condições climáticas do ano. Junta-se também a cultura e a história do produtor, os cuidados postos no acompanhamento do crescimento e maturação das uvas e por aí fora até à mesa. Por exemplo alguns "wine makers", descobriram ou foram ilustrados por alguém que há uma altura em que se deve apanhar as folhas da videira. Este conhecimento singelo faz parte do conhecimento vasto e profundo que é acumulado na história do produtor e que é transmitida ao longo de gerações. A ciência lá explicará que desfolhar a videira areja a planta, permite a entrada de mais sol para o fruto, e disponibiliza-lhe alguma seiva que assim é poupada na altura em que a humidade escasseia no solo. O "wine maker" porém desconhece que ao desfolhar a videira para o chão está desperdiçando. As magníficas parras destinavam-se tradicionalmente à alimentação animal, como eles dizem no seu linguarejar económico, destinavam-se acrescentar valor.
A cadeia de valor incrementava-se de múltiplas formas: Não só na alimentação dos animais em altura de escassez de pasto mas também como folha de embrulho de merendas e até ao servir como folha de papel, na sua utilização menos higiénica. Voltava depois ao chão da vinha na forma de valor máximo: o estrume curtido.
Os bilontras da escala centígrada que dão pontos ao vinho, nomeadamente os que andam cá por casa, em Portugal, têm uma característica curiosa ficam enternecidos quando vêem mulheres porque acham que o vinho é uma coisa de "gajos":
- "E como veio parar uma senhora a este mundo do vinho?" Ouvi um bilontra que escreve sobre comida e vinhaça perguntar.
As mulheres sempre foram parte fundamental no apurar do gosto do vinho! O paladar e o olfacto mais sensível é delas, afinal são elas que amamentam e a evolução deu-lhes a apurada sensibilidade da identificação subtil dos cambiantes do que é bom, do que é tolerável e do que é nocivo. Na culinária é igual. Os denominados Chefes menosprezam os que dizem que a sôpa da avózinha é que era boa mas a Grande Cozinha, é apenas a Farsa em que eles roubam o livro das receitas que a avózinha guardava e a Grande Culinária dos Gastrónomos é só a maneira ardilosa de disfarçar o sabor a ranço dos produtos sem frescura. Mas isto é outra história. Resumindo, creio que ao vinho não se pode aplicar um processo industrial de replicação em grande escala. Quanto maior for o número de litros maior o volume da mistura, mais difícil a sobrevivência de aromas subtis e a articulação com os mais intensos. Por isso os vinhos de grande tiragem seguem este gosto marteleiro dominante de vinhos muito alcoólicos e adocicados depositados em barricas de madeira nova para que fiquem aromatizados intensamente a baunilha e canela.
A marca comercial, a "trade mark" tão cara aos anglo-saxões é a máscara de uma fórmula. Atrás da marca supõe-se que haja um padrão de qualidade. Isso pode garantir a fiabilidade de uma gasosa americana ou até de uma cerveja alemã. Mas só a denominação de origem e o ano de produção podem responder à gama de variáveis subjectivas que são os parâmetros de comparação entre vinhos, e abrigar a noção que há diferenças que os tornam diferentes entre iguais e por isso não comparáveis. Finalmente é de afirmar: que temos os melhores vinhos do mundo ainda antes dos bilontras o dizerem; que o Jonathan Nossiter que vive no Brasil bebe diáriamente destes vinhos que têm preços acessíveis. E surpresa das surpresas alguns provêm da Região do Vinho Verde, uma região menosprezada no julgamento porque os tintos ninguém os entende e os brancos acham sempre que lhes falta teor de álcool que não envelhecem etc. Diz ainda ele que na Bairrada há vinhos brancos que têm ao paladar sabores insuperáveis que não existem em mais nenhum vinho do mundo. E agora digo eu, a casta Baga da Bairrada será ainda muito falada.
Os Tios da Moda ganharam a vaidade de fazer vinho. Agora arrogam-se como enólogos e mais do que isso "wine makers".A língua do "marketing" é tão sintética que não há expressão em Português!
Na nossa pobre língua tinha de se dizer o quê, chamar-lhes como? Vinicultor?... Nã!!... Viticultor?...Vitivinicultor?... Nada disso. Produtor de Vinho?... Vinhateiro?... Não!!!...
"Wine maker" é mesmo Marteleiro?!
Pois têm a mania que o vinho bom é o que eles fazem. E principalmente porque pagam por uma garrafa o preço que vale o pipo. Aplicam ao vinho as regras do mercado dos papéis. Isto é, as regras da especulação e do faz de conta.
Este dito mercado e a sua suposta sofisticação, tem muito a ver com as quermesses das aldeias em que é leiloado um enchido e aparece sempre uns bilontras armados em ricos que se juntam e disputam essa presunção inflacionando o valor da farinheira além do valor da saca de farinha, deixando o remediado apreciador de farinheira com grêlos a comer só grêlos com batatas e cebolas cozidas, pensando que afinal é tudo a bem da caridade das obras de caridade da confraria dos órfãos e dos irmãos desvalidos.
Curioso é que um dos senhores que escreve para as revistas e faz opinião, tem gabinete de prova na sua própria casa. -Tudo isto se vê no filme "Mondovino" do Jonathan Nossiter. O filme é extraordinário por nos revelar estas personagens e a fragilidade das suas encenações grandiloquentes em que o rei vai nu. - Quem não viu o filme pensará que o gabinete de prova é tipo uma sala laboratorial. Ou pelo menos uma sala preparada para provar vinho, limpa e asseada e sem pulverizações de perfume no ar. Pois a sala deste senhor, bilontra, "opinion maker" é uma espécie de sala de estar cheia de tralha diversa onde enquanto ele vai tirando umas fumaças do seu charuto, os seus cães flatulentos vão largando as ventosidades fedorentas criando um ambiente de excelência (excelência-uma palavra tão na moda) em que se classificam de zero a cem, os vinhos do mundo. O vinho não é um produto natural, no sentido em que só as uvas são. Os vinhos sempre foram o espelho da cultura dos seus produtores e do chão que o origina. Este conceito de "terroir", de chão, tão caro aos franceses existe na nossa língua exactamente com a mesma carga ecológica sinónima. Cada pedaço de chão é um biótopo do biótopo maior que é o ecossistema onde se insere uma vinha. Por isso à vinha faz falta o souto que a abriga do vento norte, as fragas que acumulam a temperatura e impedem a formação de geada e até as toupeiras que fazem os túneis por onde é drenada a água excessiva. Em cada vinha há vários chãos ao ponto de haver alguns tão pequenos que se reduzem a poucos pés de videira. A esta base que alguns definem como estrutura juntam-se as castas, juntam-se as condições climáticas do ano. Junta-se também a cultura e a história do produtor, os cuidados postos no acompanhamento do crescimento e maturação das uvas e por aí fora até à mesa. Por exemplo alguns "wine makers", descobriram ou foram ilustrados por alguém que há uma altura em que se deve apanhar as folhas da videira. Este conhecimento singelo faz parte do conhecimento vasto e profundo que é acumulado na história do produtor e que é transmitida ao longo de gerações. A ciência lá explicará que desfolhar a videira areja a planta, permite a entrada de mais sol para o fruto, e disponibiliza-lhe alguma seiva que assim é poupada na altura em que a humidade escasseia no solo. O "wine maker" porém desconhece que ao desfolhar a videira para o chão está desperdiçando. As magníficas parras destinavam-se tradicionalmente à alimentação animal, como eles dizem no seu linguarejar económico, destinavam-se acrescentar valor.
A cadeia de valor incrementava-se de múltiplas formas: Não só na alimentação dos animais em altura de escassez de pasto mas também como folha de embrulho de merendas e até ao servir como folha de papel, na sua utilização menos higiénica. Voltava depois ao chão da vinha na forma de valor máximo: o estrume curtido.
Os bilontras da escala centígrada que dão pontos ao vinho, nomeadamente os que andam cá por casa, em Portugal, têm uma característica curiosa ficam enternecidos quando vêem mulheres porque acham que o vinho é uma coisa de "gajos":
- "E como veio parar uma senhora a este mundo do vinho?" Ouvi um bilontra que escreve sobre comida e vinhaça perguntar.
As mulheres sempre foram parte fundamental no apurar do gosto do vinho! O paladar e o olfacto mais sensível é delas, afinal são elas que amamentam e a evolução deu-lhes a apurada sensibilidade da identificação subtil dos cambiantes do que é bom, do que é tolerável e do que é nocivo. Na culinária é igual. Os denominados Chefes menosprezam os que dizem que a sôpa da avózinha é que era boa mas a Grande Cozinha, é apenas a Farsa em que eles roubam o livro das receitas que a avózinha guardava e a Grande Culinária dos Gastrónomos é só a maneira ardilosa de disfarçar o sabor a ranço dos produtos sem frescura. Mas isto é outra história. Resumindo, creio que ao vinho não se pode aplicar um processo industrial de replicação em grande escala. Quanto maior for o número de litros maior o volume da mistura, mais difícil a sobrevivência de aromas subtis e a articulação com os mais intensos. Por isso os vinhos de grande tiragem seguem este gosto marteleiro dominante de vinhos muito alcoólicos e adocicados depositados em barricas de madeira nova para que fiquem aromatizados intensamente a baunilha e canela.
A marca comercial, a "trade mark" tão cara aos anglo-saxões é a máscara de uma fórmula. Atrás da marca supõe-se que haja um padrão de qualidade. Isso pode garantir a fiabilidade de uma gasosa americana ou até de uma cerveja alemã. Mas só a denominação de origem e o ano de produção podem responder à gama de variáveis subjectivas que são os parâmetros de comparação entre vinhos, e abrigar a noção que há diferenças que os tornam diferentes entre iguais e por isso não comparáveis. Finalmente é de afirmar: que temos os melhores vinhos do mundo ainda antes dos bilontras o dizerem; que o Jonathan Nossiter que vive no Brasil bebe diáriamente destes vinhos que têm preços acessíveis. E surpresa das surpresas alguns provêm da Região do Vinho Verde, uma região menosprezada no julgamento porque os tintos ninguém os entende e os brancos acham sempre que lhes falta teor de álcool que não envelhecem etc. Diz ainda ele que na Bairrada há vinhos brancos que têm ao paladar sabores insuperáveis que não existem em mais nenhum vinho do mundo. E agora digo eu, a casta Baga da Bairrada será ainda muito falada.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
P´rá Menina Inês, Artista, Escultora, Amante de Fado
Este é um fado em tom maior. Mas nós decidimos fazê-lo pequenino, para não roubar tempo às pessoas que têm de se ir deitar cedo que amanhã é dia de trabalho... E nós os amantes do Fado amador, amamos tanto o Fado que não podemos viver à custa dele. -Estas palavras disse-as um grande Músico a propósito da sua música. Era compositor e o maior guitarrista do nosso tempo. Chamava-se e chamar-se-á sempre enquanto houver memória Carlos Paredes.-Por isso temos de trabalhar porque a nossa vida não é isto, se bem que seja isto, o nosso Fado. Aproveitamos para dizer ainda que este é um fado em Haikus - fado mais piqueno que as quadras só se for aos ternos - e ternos(*) é como dizer em japonês Haikais ou Haikus consoante a forma que cada um saiu da rasteira. Dizer ainda, as coisas importantes dizem-se no fim, que é um fado dedicado à menina Inês que apzar de andar moídinha ás vezes e até por causa disso sofre de insónias. Obrigados, obrigados a todos. __ __________________ __
(*)ternos - Plural da palavra terno que em linguagem popular significa tropeção e queda. Diz a sabedoria popular "levanta-te que está outro p´ra caír", é minha leitura que "outro" se refere ao que rasteirou. É a Lei do Karma que em bom português se chama Divina Providência.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
O Tio Xosé Maria Alves Perez de S. Xosé de Riba Tene a quem chamavam o Tio Espanhol.
Chamavam-lhe o tio espanhol porque era casado com a tia Lucinda e porque tinha vindo de Espanha. Eu teria 3 ou 4 anos e esperava ansiosamente pelo tio espanhol, que aos Domingos entre a hora da primeira missa e a hora de almoço me vinha buscar para irmos passear até ao jardim. O tio espanhol falava de uma maneira estranha e nem sempre era fácil entender o que ele dizia. Lembro-me que não entendi para que serviam umas caixas metálicas com umas aberturas largas como as bocas escancaradas dos marcos de correio. Ele bem tentou. Amachucou a embalagem vazia do maço de cigarros até fazer uma bola e simulou a sua introdução na boca da caixa metálica. Depois para ser mais divertido, comigo às cavalitas afastou-se um passo e deu-me a mim a possibilidade de a lançar para a abertura. Depois de várias tentativas falhadas ele logo à primeira conseguiu acertar e adeus bolinha de papel.
- Pronto, já não há! Disse ele pousando-me no chão.
- Não, não! Não era para se perder a bolinha. Eu quero de novo a bolinha. Quero atirar outra vez a bolinha.
- Impossível recuperar a bola. Lamentou o tio Xosé. Mas estava bem assim. Ali é que era o lugar dela.
- Mas o lugar dela Porquê? Perguntava eu e aí vinha a tal dificuldade de compreender o tio Xosé. Sem que eu soubesse, o problema não se devia à maneira de falar do tio espanhol mas sim ao facto de no meu vocabulário a palavra lixo, não existir. Durante alguns anos, a maneira de falar do tio espanhol intrigou-me. Era misterioso... mas na sonoridade das suas palavras, havia lume e água derramada sobre tições rubros em brasa. Havia vento entre a folhagem de árvores altas. Havia o marulhar metálico de um regato passando através de seixos de pederneira.
O tio espanhol veio da Galiza e nunca ouvi ninguém referir-se-lhe como galego. A palavra galego tinha ganho uma conotação não dignificante. Devido á falta de esperança que encerrava, o seu significado era mesmo pejorativo. Nesse tempo, galego, mouro de trabalho ou preto da casa africana, eram sinónimos de trabalho forçado. Trabalho árduo no esforço, trabalho excessivo na duração,trabalho rude nas condições em que era prestado, trabalho escravo na retribuição e na falta de esperança em melhores dias. O tio galego a que por voto esperançoso de bom augúrio chamavam tio espanhol trazia-me a liberdade todos os Domingos entre a hora da primeira missa e o almoço. Com ele, as correrias eram autorizadas. Podia arrancar o sufoco da gravata ou do laço do fatinho de domingo. Podia encharcar a camisa em suor. Podia mesmo por-lhe nódoas por deixar pingar o gelado ou entornar o capilé do copo demasiado amplo, para as minhas mãos pequenas. Podia enlamear os sapatos, tingir as calças de xadrez com o verde da relva que ía pisando a cada trambolhão. Com o tio Xosé da Galiza era permitido ser criança. Todos os Domingos antes da hora do almoço a minha mãe ameaçava bater-me pelo meu estado de desalinho geral, pela sujidade entranhada nas minhas mãos e unhas, por algum rasgão na preciosa roupa ou por alguma esfoladela ensanguentada nos meus joelhos. O tio Xosé da Galiza fazia-a prometer que não me bateria e em troca ela sentenciava como castigo, não me deixar sair no próximo Domingo. No entanto no Domingo seguinte bem cedinho, logo após a primeira missa o tio Xosé da Galiza lá estava pedindo por tudo à minha mãe para me deixar sair:
- Deixa lá sair o menino!!
- Não! Que ele porta-se mal e vem sempre todo sujo.
- Quem disse que se portou mal? Ele porta-se bem, deixa-o sair!
- Não tem roupa para vestir. A roupa de domingo tive de a lavar e arranjar. Como ficou com nódoas teve de ser de novo lavada e não enxugou!
- Mas veste-lhe outra!
- Não tem outra roupa.
- Mas não é preciso nada especial!
- Não?! Hoje é Domingo o que vão dizer, que a mãe é desleixada...
- Deixa lá sair o menino que está fechado em casa toda a semana.(...)
Eu acabava por saír. O tio Xosé da Galiza apesar da sua vida dífícil e extenuante tinha a bondade de no seu pouco tempo livre encontrar disponibilidadea para me dar a alegria da liberdade.
Por isso até hoje sinto-me grato ao tio Xosé Maria Alves Perez, que veio da Galiza de San Xosé de Riba Tene.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Presidência Checa ,e Beatriz Cunha pirateada.
Um artista checo fez um acordo com a Presidência da União Europeia que neste semestre pertence à Republica Checa, para a realização de uma exposição de artes plásticas. Nessa exposição haveria obras de artistas dos 27 Estados.
Por razões que só ele saberá não convidou ninguém. Inventou artistas para cada país e decidiu roubar currículos e identidades a artistas realmente existentes e atribuir esses dados aos nomes que ele inventou.
A exposição lá está no átrio do edifício sede da Presidência da União Europeia. Da autoria do artista checo ou dos seus sequazes serão as "obras" que de facto são uma só, mas dividida em 27 partes.
O estilo do artista checo é matricialmente kitsch, talvez espelhando a vizinhança da grande Alemanha.
É sintomático que o trabalho deste artista copie a forma das grelhas nas quais as peças dos brinquedos de montar vinham cristalizadas.
Estas peças agarradas pelos seus jitos à grelha de material fundido que lhes deu a forma do molde onde solidificaram, são modelos em escala reduzida. Reproduzem navios e aviões de guerra, canhões, carros de assalto e soldados em combate. Destinam-se estas pecinhas a ser montadas para os jogos de faz de conta. Adultos, como este artista checo, costumam nestes jogos de faz de conta reviver batalhas sangrentas do passado ou projectar estratégias para teatros de guerra futuros. Os Países e as Nações são reduzidos à sua forma recortada do mapa em que a fronteira se torna na linha de partida onde são colocados os sucessores dos soldadinhos de chumbo, os soldadinhos de plástico.
Ora estas peças em kit, grelha, pré-fabricadas, que se montam como um puzzle e pretendem representar a guerra, dizem mais do artista e do seu país, atendendo ao contexto, do que ele terá desejado exprimir. Digo mesmo mais ,do que ele terá percebido.
No caso de Portugal o artista checo roubou a identidade curricular à escultora Beatriz Cunha. Beatriz Cunha tem anos de trabalho dedicado e meritório e sobretudo tem uma linguagem própria. Por isso devia ser-lhe apresentado um pedido de desculpas pela Presidência Checa.
Quanto ao artista checo não sei se ébrio, mas com grande probabilidade de ser boémio, ao comportar-se como um pirata corre risco de acordar um dia sem um olho,com um gancho em vez de mão e com uma perna de pau, pois esse é o destino dos piratas.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O Camafeu Português
Foi encontrada uma folhinha de papel, na tasca dos ourives, com um piqueno esboço da joia da moda para a próxima estação. É um camafeu português que representa Catatau Sêque(*)e seu escudeiro, quer-se dizer em ingalês Catatau Sêque and sidekick.
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(*)Catatau - besta grande e magra;
Sêque - como um bacalhau;
domingo, 11 de janeiro de 2009
Os bárbaros, os brasileiros os chineses e os estrangeirismos
Os bárbaros antigos esforçaram-se para preservar na sua língua os estrangeirismos latinos. Ainda hoje continuam o esforço quando por exemplo aprendem latim. Nós privilegiados que somos neste berço que transborda grego, latim, árabe etc. achamos que o Latim está morto e no que está morto não se mexe.
Os bárbaros entre nós, aqueles que não param nas passadeiras para os peões passarem ou que deitam lixo para cima da roupa do estendal da vizinha, esforçam-se por guardar qualquer traquezinho que tenham ouvido em língua "marketing", quero dizer em língua "import/export". Não se deram conta que as palavras eruditas dos bárbaros instruídos que eles querem imitar são maioritariamente de raiz latina. A tal raiz morta.
Os bárbaros entre nós,há uns anos anedotavam os portugueses que emigrados em França vinham de vacances pensavam na retraite e cuja profissão era a de concierge. Esses bárbaros desconheciam antes como agora a realidade rural de onde partiam para a emigração os nossos compatriotas. Nessa realidade não havia porteiros ou porteiras, não havia reforma ou direito a férias tal como em boa parte das profissões do nosso país de então não havia. Era natural que ao seu vocabulário de uso corrente lhes tivesse chegado primeiro a palavra estrangeira, e que fosse essa a utilizada.
Presentemente os bárbaros entre nós, alguns até jornalistas, fazedores de notícias e opinião, segundo as próprias palavras deles, escrevem artigos onde se apavoram com a violência dos brasileiros que roubam e assaltam bancos. Mas curiosamente não se alarmam que os canais de televisão e as salas de cinema veiculem uma sociedade "made in" em que parece não acontecer mais nada do que roubos, assaltos, assassínios, atentados e intermináveis perseguições tipo predador/presa, em que os heróis são jovens, ricos e na moda. Não se inquietam nem se questionam porque será que num filme de bandidos passado em S. Paulo no Brasil vemos uma sociedade de grande desigualdade e injustiça social, mas se for passado em Nova Iorque ou em Chicago deixamos de fazer a mesma leitura(?).
Também há bárbaros e bárbaras fazedoras de opinião, eles chamam-se a eles próprios opinion makers, que escrevem artigos contra as lojas dos chineses e contra os chineses. Chegam à mais vil barbárie necrófaga de inquirir sobre os cemitérios chineses ou os túmulos chineses nos cemitérios portugueses. Pois eu dir-lhes-ía que os chineses são como os personagens dos filmes "made in", são jovens ricos e na moda. São tal qual os portugueses que vinham de vacances e ao que consta nessa época também não eram sepultados em França. São ainda semelhantes às moças e aos moços da caixa do supermercado que são jovens sorridentes e não têm necessidades fisiológicas tais como comer, urinar etc.
Para terminar, aprendi uma ontem sobre estrangeirismos. A flor da bergamota que aromatiza o famoso chá Earl Grey é a flor da tangerineira. Porque é que nós já não chamamos bergamota à tangerineira e no Brasil chamam? Bem, eu acho que é porque a nossa memória às vezes nos traz uma imagem incrívelmente estrangeira de nós próprios.
sábado, 10 de janeiro de 2009
A partir do poema "Vou-me embora pra Pasárgada" escrito pelo poeta brasileiro Manuel Bandeira (1886-1968). Este poema sempre me fez comichão, acho mesmo que o Manuel Bandeira deu bandeira. -
Decidi pois escrever a minha versão em jeito de dedicatória aos banqueiros - mesmo os que são anarquistas ou que são socialistas- aos homens da alta finança e a todos os vendilhões do templo sejam eles cambistas de boa ou má moeda. Reproduz-se a antologia poética «Os poemas da minha vida» da professora Maria Alzira Seixo à qual pertence o comentário em roda pé.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
O amor aos livros
Os livros foram objecto do meu amor desde a meninice. A paixão foi primeiro dirigida ao livro como objecto em si. A primeira memória é testemunho disto: eu era ainda demasiado pequeno para ter aprendido a ler, deveria ter entre três e quatro anos. Na altura estava em casa de uma tia avó que cuidava de mim enquanto a minha mãe estava internada no hospital.
O meu pai tinha uma venda de pão e levantava-se às quatro da manhã para ir à panificação buscar o pão acabado de cozer e distribuí-lo pelas casas dos seus fregueses ainda antes de qualquer depósito ou padaria terem aberto as portas. Não tinha pois horário para tomar conta de uma criança de tão tenra idade. As suas visitas eram rápidas e demasiado escassas para me trazerem notícia e consolo sobre a saúde da minha mãe. Por isso ou para me calar o pranto, a tia Lucinda prometeu que o meu silêncio estóico de homem grande -pois os homens não choram- valeria alguma prenda enviada pela minha mãe. O meu pai apanhado desprevenido sentiu-se na obrigação de me trazer um presente. A falta de tempo fez com que a prenda anunciada demorasse a chegar o intervalo de duas visitas.
Finalmente após a ansiedade da espera o presente extraordinário chegou sem ser Natal ou dia de aniversário. Era um livro de histórias maravilhosas. Tinha em cada página um quadro feito com silhuetas perfeitas como sombras chinesas. Não podiam ser mais explícitas: os tricornes, as espadas dos homens de casaca, suas botas de tacão alto, os vestidos majestosos das princesas, seus sapatinhos de fivela, seus dedos finos deixando pendentes os lencinhos bordados, os penteados em forma de abóbora, os cavalos, as carruagens, os pássaros nas árvores, os castelos e palácios, as feiticeiras, os animais, os meninos pobres, os meninos que se portavam bem...
O livro tinha algumas linhas de escrita ao fundo de cada página que serviriam de certo para explicar aos mais crescidos tudo o que não pudessem entender para o caso, julgava eu, de não estar ali presente para lhes contar a história.
Por essa altura uma irmã da tia Lucinda veio de visita por uns dias e trouxe a neta. Quase da minha idade essa minha prima em terceiro grau seria uma companheira de brincadeiras. A tia Lucinda assim disse prometendo alegria e distracção durante a estadia.
O que é provável nem sempre é possível e a verdade é que o meu território foi invadido por um ser que conseguia chorar mais alto do que eu por motivos que me eram incompreensíveis. Sempre que ela chorava eu apanhava uma palmada ou as que fossem necessárias até ser eu a chorar. Só assim ela ficava apaziguada soluçando de mansinho. Alegria sim mas não minha, distracção? Mas que distracção?!
Tive de partilhar os pequenos lápis de cor e as folhas de papel branco que eram raras e preciosas. É claro que a partilha não era a comunhão e assim vi-me privado do lápis vermelho e o do verde escuro reduzido ao cor-de-rosa e ao castanho. A tragédia porém ainda não tinha acontecido.
O meu precioso livro foi alvo da cobiça da minha prima. Um dia tinha-a apanhado em vias de começar a riscar o branco imaculado sobre o qual as preciosas silhuetas se recortavam. Evitei mesmo a tempo a iconoclastia e nunca mais lhe emprestei o meu livro. O meu desvelo pelo livro que de alguma forma me trazia a lembrança da minha mãe e a sofreguidão da minha posse aumentaram o desejo da minha prima. Sem contemplações desatou a berrar encarnada de fúria, babando e ranhosando até espumar.
"O que foi?" , "...o que fizeste à menina?!", "...confessa o que fizeste!! "Querida o que foi que ele te fez?" -Entrecortado pelo soluçar profundo de tirar a respiração, ela lá balbuciou que eu não lhe emprestava o livro - "e que tinha ficado combinado com a tia Alzira tudo partilhar. Ela emprestara-me todos os brinquedos e eu não lhe emprestava o Livro."
A tia Lucinda muito religiosa, praticante ,honesta e honrada mas sobretudo adepta da Justiça de Salomão. Explicou clara e crua: ou eu emprestava o livro ou ela dividia-o ao meio. Tentei argumentar que ela riscava o livro, que ele era meu, que era um presente da minha mãe... Em vão. A tia Lucinda rasgou o livrinho ao meio e deu metade a cada um. A minha prima satisfeita guardou a sua metade. Eu horrorizado fugi sem querer ver o que restava da única coisa que me dava o conforto pela ausência dos meus pais.
Salomão ameaçara com a espada dividir ao meio um recém nascido para satisfazer duas mulheres que disputavam a sua maternidade. A mãe verdadeira gritou para impedir o golpe da espada e rogou para que a criança fosse entregue à outra mulher. A sabedoria de Salomão fez com que a falta de piedade da falsa mãe se revelasse e assim ficasse desmascarada.
Quanto a mim nesse dia senti a dor profunda, o desgosto e a desolação perante a destruição. Aprendi que a justiça tinha os olhos vendados para não tomar partido mas que isso sendo uma coisa boa a impedia também de ver para além da sua própria razão e isso podia causar danos terríveis.
domingo, 21 de dezembro de 2008
A poda das árvores
Os golpes que não nos abatem não nos tornam mais fortes.
Marcam-nos profundamente e deformam-nos, como a poda nas árvores.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
José Saramago - Memória como a de Elefante
Lembro-me do José Saramago sentado junto da tasquinha dos metalúrgicos Na Alameda D. Afonso Henriques. Ficava lá autografando os seus livros para leitores pouco prováveis: operários e trabalhadores com pouca escolaridade. Nessa altura era da parte dele um acto de militância mas também de generosidade. O homem de ar austero sabia de certo quanto valia. Os que como eu lhe sabiam o nome e lhe tinham lido uns livros sentiam orgulho pela sua notoriedade. Sentiam de alguma maneira que ele projectava o seu esforço anónimo, e lhe dava sentido e valor. Pergunto-me hoje se o seu subtil sorriso nos lábios enxutos seria por causa do Sol de Maio, do erro no cálculo da probabilidade face ao resultado de autógrafos oferecidos, ou da alegria de ser entre pessoas de trabalho comemorando o seu dia em liberdade.
Memória como a de Elefante não serve para reviver dores do passado, serve para prevenir que as dores futuras aconteçam, ou no caso de não se poderem evitar, não sejam tão devastadoras.
domingo, 23 de novembro de 2008
Poemas de Adília Lopes
_________________Eu escrevo__________________
_________________pequeno-almoço______________
_________________os poetisos escrevem________
_________________almoço pequeno______________
_____________________________________________
_____________________________________________
_________________Sobre a erva________________
_________________sobre a relva_______________
_____________Dia_______________________
_____________sem poesia________________
_____________não é dia_________________
_____________é noite escura____________
_______________________________________
_______________________________________
_____________Mas a poesia______________
_____________é noite escura____________
sábado, 22 de novembro de 2008
Adília Lopes É preciso ler Adília Lopes!
Em tempos li mas sem ler, uns poemas da Adília, de fugida, sem prestar muita atenção. A envolvente cómica em que me foi apresentada não me cativou e havia nos poemas umas baratas e outras coisas tão prosaicas que não podiam ser para levar a sério. Como qualquer carrancudo sou muito exigente com as coisas que me fazem rir e não me ri.Pensei como era possível alguém ser poeta com um nome daqueles - Adília Lopes. Não me lembrei que é tão bom ou tão mau como Fernando Pessoa - Pessoa é nome de gente?- Nem dei conta que era igualmente improvável alguém poder chamar-se Jorge de Sena,ou como seria possível escolher o nome Herberto Helder para um poeta...
O preconceito é um fenómeno estranho e complexo que traduz impreparação, imaturidade.
Agora anos depois, encontrei uns livros da Adília e gostei muito.
"LE VITRAIL LA NUIT * A ÁRVORE CORTADA " de 2006 e "CADERNO" de 2007 são dois livros da &etc que comprei e releio.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
A famosa arca de Fernando Pessoa e alguns dos seus papeis originais vão à praça. Ali bem perto (300 m) de onde repousam os seus restos mortais no Mosteiro dos Gerónimos, vão ser leiloados no Centro C. de Belém para quem os queira e possa comprar. Não sabemos ainda se o Estado Português através dos Governantes e Administradores reinantes exercerá poder de opção ou sequer terá capacidade de exercer tal poder.
Papel por papel o mercado está cheio de papeis e o Fernando até compreenderia que os seus, comparativamente aos de um qualquer banco descapitalizado, são menos importantes. Por isso ele que como JESUS CRISTO não percebia nada de Finanças mas conhecia a natureza dos Banqueiros e de outros seres como traças e caruncho nunca achou importante ,como JESUS CRISTO,ter biblioteca. Ambos sabiam que a certa altura morrerão os papeis as arcas e ____________ ___________ ___________
a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,__________ __________ __________ __________
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
___________ ____________ ____________inTabacaria, de Álvaro de Campos
Foi decidido ontem pela Comissão Europeia, esse Olimpo de Professores, suspender a normalização que obrigava a que 26 produtos agrícolas tivessem o aspecto de serem iguais. Boa notícia para os produtores de miniaturas e Fenómenos do Entroncamento que antes desaproveitavam a sua produção ou tinham de a desbaratar. Contudo como estas decisões de gente ínstruída nunca são fáceis nem precipitadas, a medida só produzirá efeito a partir do próximo verão. Têm tempo assim os produtores de pré-avisar os laboratórios de genética que com eles trabalhavam e se atarefavam na procura da cenoura cilindro perfeito, na Beringela sem curvatura, na fava sem casca e sei lá que mais. "Porreiro Pá!"
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Ao senhor professor Baptista com reconhecido apreço pelo contributo que deu para a formação da minha personalidade e a todos, mas todos, os senhores professores que fazem deste País um País grande e ditoso apesar de pequeno no tamanho. Refiro-me aos senhores Professores que na melhor tradição da tele-escola nos chegam sobretudo pela televisão,não me refiro aos que aparecem por breves segundos em alguma manifestação,mas sim aos que falam e sabem tudo: da glória histórica da História, à glória futebolística do Futebol, do Comentário Político à própria Política e nos provam que somos grandes.
O Baptista trajava fatos escuros riscados a tira-linhas. Hoje continuaria a estar na moda.
O Baptista vestia terno e relógio com corrente no bolso do colete.
O Baptista tinha caspa.
O Baptista tinha pouco cabelo.
O Baptista puxava a guedelha de orelha a orelha para tapar a calva.
O Baptista fumava Porto ou Português Suave. Fumegava pelas ventas como um dragão.
O Baptista não travava o fumo deitava o fumo pelo nariz. Dizia ele que assim não fazia mal aos pulmões. O Baptista não percebia nada de fisiologia.
O Baptista tinha dedos amarelos.
O Baptista tinha dentes de ouro e dentes amarelos.
O Baptista coleccionava lápis com publicidade.
O Baptista andava de bata branca desabotoada.
O Baptista andava sempre com uma cana na mão. Apoiava nela o queixo ou o sovaco à laia de pastor.
O Baptista via-nos como o seu rebanho e batia-nos com a cana até ela se desfazer.
O Baptista reparava as canas que se rachavam com rolos de fita gomada.
O Baptista escolhia os alunos ricos para as carteiras da frente.
O Baptista sentava os alunos com mais dificuldades nas carteiras do fundo da sala. Os que não aprendiam com facilidade ou que eram pobres tinham as últimas filas.
O Baptista tinha uma régua com dois dedos de espessura. Massacrava linhas do destino e os nós dos dedos que teimavam em se enrolar com medo da pancada. O Inverno só sabia bem nos ferros gelados das carteiras para sarar as mãos a arder.
O Baptista tinha um radiador eléctrico, incandescente só para ele.
O Baptista obrigava-nos a ajoelhar nos degraus do estrado frente ao quadro de ardósia. Batia-nos na nuca com o peso morto das manápulas aneladas. Puxava-nos as orelhas até à cor vermelha do seu rosto colérico e o som da sua fúria ser um zunido.
Quando houve uma epidemia de cólera o Baptista mandou chamar os pais dos alunos. Os da fila da frente. Os pais que eram médicos. Foi assim que à sorrelfa arranjou vacinas para si, para a mulher que era professora no piso debaixo e para os filhos que eram homens adultos que se tinham safado de ir à guerra.
O Baptista recebia envelopes que os pais dos alunos mais pobres lhe entregavam em vassalagem: no Natal, na Páscoa e no final do ano.
O Baptista como um senhor feudal prometia protecção e indulgência.
O Baptista era um desportista. Lia jornais desportivos e uma vez por ano toda a classe fazia actividade ao ar livre: puxávamos uma corda saltávamos em comprimento e pontapeávamos uma bola no recreio onde no resto do ano era proibido jogar à bola. Excepto a outra classe que tinha recreio a outra hora e era a dos alunos do Sr.Director.
O Baptista ensinou-nos a falar estrangeiro “love”, “peace”, “kiss me”. Palavras que segundo ele, uma rapariga “meia fraquinha da cabeça meio desavergonhada”, tinha escrito na sua mala e nuns crachás que usava na lapela.
O Baptista era um apreciador de arte e falou-nos de Picasso. Dirigiu-se ao quadro fez uma garatuja e sentenciou: -Se fosse o Picasso a fazer estes riscos eles valeriam uma fortuna!
O Baptista fez-me acreditar que eu era um aluno sofrível. Muitos anos mais tarde ao encontrar os certificados de passagem de classe fiquei admirado 17, 19, 18 (numa escala de máximo 20) e no exame final da 4ª classe tive Bom.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
domingo, 12 de outubro de 2008
HERBERTO HELDER
23 de Novembro de 2006
Há Poetas como muros altos
Abrigados neles
Pequenos inanes
Crescemos e chegamos
Até à altura do horizonte
Vemos o Universo
Primordial como Pedra e Água
Exultante como líquenes e flores
Delicioso como frutos
Fundamental como tubérculos e hortaliças
Há Poetas cuja voz
É uma escada ou um tronco
De Oliveira
Que nos convida a subir
-e antes do tempo, por momentos –
Deixamos a meninice.
Luís Filipe Gomes
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
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