sábado, 21 de outubro de 2017

O que me ensinaram os que sobreviveram aos fogos.

Nestes dias em que apressadamente aqui e ali estendem o microfone rápido aos que sobreviveram ao lume, muito tenho aprendido. 

Fiquei a saber que quando se foge por uma estrada ladeada de árvores de combustão rápida como os eucaliptos e os pinheiros há um risco acrescido de morte por não se conseguir chegar a campo aberto e seguro.

Uma vez dentro de uma viatura em fuga e rodeado por chamas, é bem provável que o caminho deixe de se ver por causa do fumo, como se caísse um nevoeiro denso e a cerração não deixásse ver mais que um metro ou dois de distância. Por mais familiar que o caminho seja a desorientação é muito provável.

Este fumo que sufoca e faz arder os olhos, provoca lágrimas que toldam ainda mais a visão. A temperatura, a falta de oxigénio e a desidratação rápida, colocam o cérebro em modo de sobrevivência. Nesse estado as decisões são instintivas. Só um treino anterior pode preparar alguém para  contra-intuitivamente e em automatismo, reagir de uma determinada maneira. Por exemplo atravessar as labaredas de uma parede de lume.

Se o caminho de fuga estiver obstruído por viaturas imobilizadas, por ramagens ou árvores que caíram e se se avistar uma brecha para poder fugir a pé; é provável que a porta da viatura não se consiga abrir. Nos carros mais antigos a chapa e os componentes metálicos aquecem e dilatam. Nas viaturas mais recentes os componentes plásticos perdem tenacidade, tornam-se fluidos e fundem.

Se o fogo se aproximar de um povoado, a menos que o caminho de evacuação seja totalmente seguro, é melhor não fugir. É melhor encontrar um terreiro, um adro, um largo, uma praça e fazer um perímetro de arrefecimento. Com vasilhas cheias de água, de vinho, de líquidos neutros e incombustíveis, com eles regar tecidos grossos de fibras naturais, proteger o rosto e as mãos e auxiliar o próximo. Idealmente encontrar um tanque de lavagem ou de rega, uma cisterna, uma represa de água em que o corpo se possa mergulhar e manter arrefecido.

A dependência do fornecimento de energia eléctrica da rede para bombas ou motores de rega ou a dependência do abastecimento de água da rede pública pode ser fatal, porque pode falhar no momento de maior necessidade. 
Os cabos aéreos pegam fogo, os postes que os sustentam ardem e colapsam. As canalizações de água perdem a pressão e o caudal. As mais superficiais com o calor fundem e rompem.

Pedir auxílio pode não ser possível devido ao elevado número de comunicações em simultâneo. Os cabos de telecomunicações aéreas também incendeiam, assim como as antenas fixas.

Uma casa que tenha resistido às faúlhas e até às labaredas, devido ao aumento de temperatura das suas paredes, pode sofrer uma auto-ignição e entrar em combustão ardendo de dentro para fora. Assim me relataram que aconteceu em Tondela. 

A primeira vez que ouvi falar na auto-ignição de casas, foi pelo relato feito por uma habitante belga que há cem anos durante a Primeira Grande Guerra se lembrava de ter havido um ano particularmente sêco e de um verão com temperaturas elevadas a tal ponto que as casas de madeira em que viviam tiveram de ser molhadas para não entrarem em combustão espontânea. Agora fiquei sabendo que também pode acontecer nas casas de alvenaria mesmo após a avaliação dos bombeiros não ter detectado esse acidente em curso.

Quem poderá, a não sermos nós, guardar este precioso conhecimento? 
Como poderemos integrá-lo no nosso quotidiano de forma a ele fazer parte da nossa cultura? 
Como poderemos, de outra maneira, alhearmo-nos de uma cultura de segurança esperando outra catástrofe?
Não são só os fogos. São também as cheias, os sismos e o pior de tudo: A corrupção.






6 comentários:

Lilazdavioleta disse...

" Não são só os fogos. São também as cheias, os sismos e o pior de tudo: A corrupção. "

Òptimo resumo de um não menos óptimo texto .

Obrigada pela partilha .

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras disse...

Luiz, magistral, esta tua crônica, parabéns! O teu blog poderia ser chamado de Luiz escrete, pois tens uma excelente verve para tanto. Admirei demais o teu texto, em forma conteúdo e veemência. Estou solidário às tuas colocações, pois lá e cá no Basil é a mesmíssima coisa - são os papas da verdade e corporativistas. Parabéns! Abraço. Laerte.

Luis Filipe Gomes disse...

Bem hajas Maria, eu é que te agradeço.

Luis Filipe Gomes disse...

Muito grato Laerte. De facto o meu blog é um escrete nesse sentido de que é algo gizado, um esboço, um apontamento rápido para minha memória e reflexão futura. Um Abraço também!

Justine disse...

Seria urgente integrar essas informações nos curricula das escolas, preparando assim desde crianças as populações para as catástrofes naturais. Como se faz no Japão, por exemplo, com os sismos. Principalmente agora, que o homem não para de destruir o equilíbrio da natureza...mas acabas o teu excelente texto mencionando um factor que impede essas acções pedagógicas: a corrupção!
Terrível tempo este!

Luis Filipe Gomes disse...

Obrigado pela tua atenta leitura Justine. Corrigi a ortografia mas o editor de texto agora diminuiu o tamanho da letra. Fica a reparação para depois.