Como ultrapassei a praxe.
No tempo em
que havia Indústria o mundo fabril tinha também as suas praxes para os novatos
que nele ingressavam. Fundições, fábricas, estaleiros e oficinas tinham os seus
códigos e regulamentos que transformavam colegas em companheiros, e companheiros
em camaradas.
No meu tempo
de ser submetido a praxe, ninguém me perguntou se alinhava na praxe ou se era
contra ela. Não havia “Dux” na minha praxe mas todos os que me acolhiam na condição
de novato sabiam perfeitamente o que tinha acontecido ao último “condottiero” que se autocognominara “Duce”.
Deixo aqui a narrativa de alguns episódios em que aparentemente só me saíam “duques”.
De seu nome próprio
Lenine, um dos meus Veteranos tinha nascido em 1917 e foi dele a primeira prova
que superei. Mandou-me atender um velho telefone que eu nunca vira ser usado
por ninguém. Supostamente a telefonista passara para ali uma chamada para mim.
Como o PBX onde ela trabalhava era ali ao lado, fui lá confirmar se alguém me
telefonara, como estava envolvida na praxe a telefonista disse-me que sim.
Pedi-lhe delicadamente para passar a chamada para o outro telefone onde era
habitual o pessoal da oficina atender. Disse-me que não podia porque a linha
estava ocupada, mas como dando dois passos eu podia ver dali que estava livre e
sem ninguém a falar dele, ela sorriu e disse-me que a chamada tinha caído. O
telefone tinha o auscultador cheio de tinta negra de impressão que me pintaria
de preto a orelha e parte da cara.
Outro
Veterano com quem passei mais tempo chamava-se Alemão e quem olhásse para o seu
bigode algo imperial, meio godo meio prussiano, e para os seus olhos azuis
turquesa, poderia pensar que aquele apelido de família era apodo. O senhor
Fernando Alemão após eu ter lavado vários equipamentos com uma pulverização de
uma mistura de petróleo e solvente, mostrou-se preocupado com o ataque de gaifanas que eu estaria a sofrer nos
meus olhos; a suposta inflamação passaria a conjuntivite e para a evitar eu teria
de usar uma pomada especial, uma graxa de massa consistente que teria de ser
aplicada na testa e com ligadura. Isto foi por volta do meio-dia, imediatamente
antes de irmos para a rua almoçar a uma pequena casa de pasto vizinha. Inspeccionei-me
ao espelho e tudo estava normal. Saí para o almoço sem a tal ligadura. O
empregado da taberna corroborou a história e ao tratamento já acrescentava rodelas
de batata crua entre a ligadura e a massa consistente que era para manter na cabeça a
tarde toda. Disseram que eu era teimoso e que sofreria em breve; teriam de me
levar ao médico. Na parte da tarde mais lavagens de equipamento me esperavam,
preocupados que estavam com o ataque das gaifanas
nos meus olhos ofereceram-me uns óculos de protecção tipo mergulhador que se
ajustariam perfeitamente ao meu rosto com uma banda elástica. Sensibilizado com
aquele cuidado aceitei os óculos mas interroguei-me porque não me teriam fornecido
eles antes tais óculos. Assim que os avaliei melhor fiquei com os dedos sujos
de tinta azul indelével, igual á que usa para marcar os dedos dos votantes em
locais onde só assim se pode fazer o controlo de eleitores para os impedir de votar
mais de uma vez. A tinta leva vários dias para saír apesar do solvente e da
escovagem da pele que fica inevitavelmente vermelha da inflamação.
O Saraiva
tinha-me reservado a prova mais bruta: a do tréque-lambér-de-orelhas. Assim sem
mais nem menos e com urgência máxima era necessário ir buscar essa ferramenta
de precisão capaz de desempenar veios múltiplos, árvores de excêntricos e rodas
dentadas chamada tréque-lambér-de-orelhas. Era tão precioso que estava guardado
no piso superior da oficina dentro de uma caixa de madeira com o tampo pregado.
A caixa pesava seguramente 30 kg. Um carrego grande, não fôra o monta-cargas.
Azar dos azares nesse dia e naquela altura o monta-cargas avariou e não descia
nem subia. Do alto de uma escadaria de 63 degraus encaracolados numa espiral
estreita, penosa de subir ou descer, mesmo com as mãos livres, com espaço
disponível só para um carregador era um sacrifício e um perigo carregar tal
fardo. Pedi para abrir a caixa, era disparate levar aquele caixote enorme se fosse
possível levar a ferramenta por partes, devidamente condicionada. Não! Não era
possível e era proibido abrir o caixote. Sob pena de represália informou-me o
Saraiva. Mas se na oficina ía ter de abrir o caixote porque não fazê-lo logo
ali? Peguei no pé-de-cabra e o Saraiva saiu a correr a chamar o chefe da
oficina. Ouvi o monta-cargas trabalhar. Abri o caixote na mesma. Entre pedaços
de esferovite descobri chapas de metal e tijolos. O chefe da oficina chegou e
cumprimentou-me, deu-me uma palmada nas costas e convidou-me para uma pausa e
um café com a promessa de que mais ninguém da oficina se meteria comigo. Ofereceu-me
um cigarro em sinal de comemoração e prontificou-se a que eu o acendesse estendendo-me
o isqueiro aceso. Mas porque diabo haveria o Montenegro de me oferecer aquele
cigarro branco se ele só fumava Negritas, os cigarros de papel escuro? Puxei
uma fumaça e afastei o cigarro de imediato enquanto uma pequena bolsa de
fuligem estoirava. O Montenegro desatou a rir apesar da camisa branca que usava
ter sido atingida.
Noutros
locais outras praxes passaram e delas saí mais ou menos incólume. Todas estas
praxes cumpriam o objectivo da minha integração no grupo, no fundo queriam
testar a minha atenção, a minha capacidade de avaliar uma situação, a minha
autonomia em tomar decisões, a minha capacidade de concentração, o meu
altruísmo, a minha entrega ao grupo, o meu carácter no fundo. Todas estas
provas colocavam-me perante a minha humildade, mas davam-me escapatória para
não cair na humilhação.
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