sábado, 14 de outubro de 2023

A minha Mãe Maria Fernanda Duarte Gomes aos 23 anos.


 

Faz hoje um mês que a minha Mãe, Maria Fernanda Duarte Gomes Faleceu. A casa onde nasceu na aldeia de Grijó, Freguesia de Cabril, Concelho de Castro Daire, Distrito de Viseu.


A montagem de fotografias mostra a casa já em ruína. No primeiro andar logo à entrada da porta havia um forno de pedra, como mostra a fotografia do lado direito.



É uma terra de xisto na Serra de Montemuro. Com essas lousas tudo se construía: As paredes das casas e os seus telhados. Pavimentavam-se os caminhos com as pedras em cutelo para que o piso fosse antiderrapante na subida dos declives acentuados. Com essas rochas que foram leito de um mar anterior à humanidade nos antípodas da Europa há 465 milhões de anos, quando os continentes não eram o que hoje são tudo se fazia: desde as pequenas ardósias onde se aprendia a escrever até ao enorme quadro negro que da escola primária à faculdade podia albergar as primeiras letras ou as equações matemáticas mais complexas.



É uma terra de montanha na Serra de Montemuro. A norte corre o Rio Douro a sul O Rio Paiva, A Paiva. Nesta Serra onde as neves perduram para além das que cobrem as montanhas mais altas. 

A vida era árdua e austera, no tempo em que a minha mãe nasceu havia uma corrente de emigração para o Brasil onde qualquer trabalho possibilitava uma vida acima do limite da subsistência e da pobreza. 

Depois veio o Volfrâmio. O volfrâmio-W, a que hoje chamamos tungsténio, foi usado durante a Segunda Guerra Mundial para fazer superligas de aço utilizadas para fins militares entre os quais os projécteis capazes de perfurar as blindagens dos carros de combate. Portugal era nessa altura o maior produtor mundial. Toda a Serra foi esburacada na procura dessas pedras pesadas. Depois após breve desafogo a vida voltou a ser difícil como antes, nessa altura pelos 14 anos nesse êxodo rural em que se partia para o Brasil, para o Porto ou para a capital, a minha Mãe vem para Lisboa.


terça-feira, 29 de agosto de 2023

Água numa terra árida.

 





























Água numa terra árida.
"Traziam a água de longas distâncias. As fontes perto da aldeia tinham secado. A água dos poços mais profundos era a que restava após anos de pouca chuva. Caminhavam até à fila onde esperavam pacientemente a vez de encherem suas vasilhas. Todo o tipo de recipiente era aproveitado: Bilhas, potes de barro, cabaças, garrafões de plástico de toda a espécie, latas... Os que tinham bestas carregavam-nas com os enormes pneumáticos das rodas de camião como se fossem odres."


sábado, 19 de agosto de 2023

Ao Haroldo de Campos


Como se fôsse possível ele disto saber ou ter alguma curiosidade.



Doíam-lhe as pontas dos dentes,

uma nevralgia comum

nos que combatem o escorbuto

comendo limões à dentada.

-A piorreia vai-lhe levar os dentes-

Disse-lhe a periodontologista

Numa das raras aparições

em que não entregara a consulta à higienista

para passar no ginásio de “fitness”,

ou fornicar com o amante

-Falta de limpeza! O sr. não lava os dentes?

-(…)

-Pelo menos não os lava como deve ser!

-(…)

O senhor fuma?

-(…)

-Tanto tártaro… Pedra; sabe!

-(…)

-Mas afinal o que é que andou a comer?...

-(…)

-Bebe muito chá?

- (…)

Curcuma! Dir-lhe-ía

se possível fôsse responder,

boca escancarada;

de um lado a fresa pneumática,

de outro a cânula de aspiração de líquido.

 

A estrutura do poder é essa

Provocar a ansiedade. Julgar.

Causar o sofrimento.

A sugestão da dor

pela sensibilidade antecipada da dor.

Implantar uma raiz de mêdo.

Deixar uma marca indelével:

Uma cruz numa porta

que se receou apagar

ou uma estrêla que se cose na veste

com a côr amarela

com que a açafroa tinge o aço.

 

Desistiu das consultas de periodontologia

quando uma dor violenta

o levou de urgência a um dentista.

Após radiografias

e dois pareceres médicos independentes

o estomatologista extraiu-lhe 4 dentes sem cáries

que tinham ganho quistos nas raízes.

Decidiu nesse momento inconsciente

morrer desdentado, velho,

contra a opinião das amigas

que lhe palpavam o “look”. 

Um sibilar novo alterara-lhe a loquacidade, 

devido a falta dos incisivos 42,41,31 e 32.

Passou assim a expressar melhor

a fundamentação do desprezo

pela ignorância dos deuses médicos

dessa outra especialidade clínica.