domingo, 14 de fevereiro de 2010

Algés é um sítio bonito.

Algés é em árabe o giz. É um sítio bonito de restaurantes e cafés espaçosos, casas antigas, jardins amplos na beira-rio. Da antiga estância balnear do início do século XX existem ainda traços arquitectónicos que se tornam mais óbvios a caminho do Dafundo. No segundo Sábado de cada mês realiza-se uma feira de artesanato onde se encontram produtos de origem rural: bolinhos, compotas, e licores; pão, vinho , queijos e enchidos; cêstos e alcôfas; brinquedos, jogos e instrumentos musicais de madeira; pequenas peças de trapos coloridos e de outros materiais modernos reciclados desde tapetes a carteiras para documentos etc. Em Algés, se nos aquece o Sol pela manhã, no Inverno frio e chuvoso, é o próprio Verão que podemos adivinhar. As brincadeiras das crianças são prova disso. E até a escultura da senhora com o casaco pelo braço parece fazer sentido.

Após adiamentos sucessivos fui a Algés ver a exposição do Bartolomeu.

O local da exposiçao. As gravuras são espantosas. Mas há outras facetas do incansável experimentador que foi Bartolomeu. Partindo sempre do desenho e da gravura a sua criatividade rompeu a limitação formal de cada técnica. As sereias libertam-se das duas dimensões da folha de papel e mergulham de novo, talvez na tentativa de salvar dos botes submersos os marujos naufragos. Tenho vontade de voltar de novo. Há um extraordinário documentário de Jorge Silva Melo feito para a RTP, mas que infelizmente não estava disponível para venda no local, ainda que lá se proceda à sua exibição como parte integrante da exposição. Também o catálogo não está ainda disponível e é pena. No andar superior artistas jovens, alunos de Bartolomeu, apresentam trabalho em continuação de Bartolomeu. Há várias propostas desde fotografias da presença de Barto, dos locais por onde passou, ou onde viveu, até à intervenção em chapas de cobre com as palavras ditas por ele. Neste caso a chapa de cobre assume a dupla qualidade de matriz e suporte. É o suporte para as palavras de Bartolomeu, à semelhança do que ele fez com as palavras de outros poetas. Mas continua sendo matriz quando dela recebemos as palavras que em nós se imprimem.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O rei vai nu

Quem tem olho cru ----------------------------- Não se deixa enganar, -------------------------- Possa sua voz gritar ------------------------------ Que o rei vai nu. ------------------------------

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Pensamento Xuxialista: Terramotos, Sismos...Pode ser que morram os da Oposição!

Atrás das costas, o Inominado---------------------- alguém me lave as costas--------------------------- que não quero ver o sujado.------------------------ ---------------------------------------------------------- A propósito de uma reportagem na TV. Fiquei a saber que no ano passado tentando acabar com a falta de fiscalização e controlo que existe na verificação da boa prática na construção de edifícios, de forma a que eles posam resistir a terramotos, o Partido Comunista apresentou na Assembleia da Republica uma proposta de Lei. Essa proposta de Lei visava acabar com a avidez e a falta de cultura que a troco de lucro fácil, indigno e sem escrúpulos, enriquece os prevaricadores da construção sem segurança que se vem detectando e para a qual reina a impunidade. Aconteceu o inacreditável. O Partido Socialista com maioria absoluta vetou tal proposta de Lei. Refugiando-se na presunção de que há leis para a construção anti-sismica e que há fiscalização. Sabe-se que ninguém fiscaliza e que os responsáveis pelo licenciamento, as autarquias, nem sequer têm meios para fiscalizar. Por isso a recusa da aprovação desta Lei visa proteger quem? Ou melhor, visa desproteger quem? Para lucro de quem? A premência da apresentação desta proposta de Lei pelos comunistas foi reconhecida numa atitude paralela tomada pelos deputados quando descobriram que na sua Assembleia, corriam o risco de morrer soterrados em caso de sismo e logo decidiram mandar fazer obras, para reforçar a estrutura do edifício aproveitando para responder a outras necessidades como ar condicionado, terminais informáticos etc. etc. ------------------------------------------------ Nessa altura ainda não tinha acontecido o terramoto do Haiti. Agora que aconteceu e o Partido Socialista não tem maioria absoluta porque esperam os deputados comunistas? E os outros que se dizem preocupados?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Ontem Domingo vi a primeira Andorinha.

Foi uma manhã de nevoeiro, um meio dia de sol, e uma tardinha com chuva. Contra o céu violeta carregado, junto à Ribeira de Loures, lá estava ela, pousada num fio de telefone, olhando o horizonte e as casas em redor.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Livros recebidos no aniversário

Para o Fernando Pessoa ele era o Presidente-Rei, para as camadas populares da minha meninice ele era um santo que se compadecera e fizera a sopa-dos-pobres onde os desvalidos podiam comer uma refeição quente por dia. Para mim que sempre o tinha julgado um militar só de há 12 anos para cá é que sei que ele era um Doutor de Coimbra (moro na Rua Dr. Sidónio Pais). Dr. em Economia da mesma escola de outro ditador posterior bem mais sinistro e de muito má memória. Mas o que desconheço até hoje completamente é o perfil de José Júlio da Costa, heroi para uns e assassino para outros. Espero colmatar a lacuna. É um livro que vinha namorando há três anos. O Professor Moisés foi dos que contribuiram para o gosto do conhecimento das nossas raízes. E aqui fala de Fátima um local sagrado para os católicos apostólicos romanos, após os fenómenos que lá aconteceram em 1917, mas que antes já o tinha sido para os islamitas. Afinal Fátima é o nome da irmã do profeta Maomé. São investigadoras portuguesas e o livro vem preencher uma lacuna no conhecimento do nosso património. Em paralelo com a História diz de onde viemos e talvez porque somos da maneira que somos. O livro vem esgotando edições. Joseph Conrad nasceu em 1857 na Ucrânia escapou da mobilização por não querer combater pelo Czar da Rússia. Vai para Marselha e aos 17 anos faz-se marinheiro da Marinha Mercante. Mais tarde, reforma-se antecipadamente e instala-se em Inglaterra, onde se torna cidadão britânico. Mais do que tudo passa a ser escritor a tempo inteiro. Morre em 1924 vítima de ataque cardíaco. Leio tudo o que posso dele: Este ainda me é desconhecido. Li crónicas da autora. Ouço os comentários nas Televisões. Vai ser uma estreia. Este é do ano passado. Quem se interesse por história dos descobrimentos, sociologia, economia de certo conhece este Jubilado e júbilável, emérito professor. Nunca li este primevo livro sobre Fado. Conheço a História do Fado do Tinop. Espero poder ler o do Rui Vieira Nery, que também não conheço mas já desfolhei e parece-me precioso.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Bartolomeu Cid dos Santos

Exposição a inaugurar dia 29, sexta-feira a partir das 18:30H no Palácio Anjos em Algés onde está o centro de Arte Moderna Manuel de Brito. Alameda Hermano Patrone, que é onde fica o Jardim de Algés junto à Via Marginal. Bartolomeu foi um grande artista português. Os que o conheceram dizem que foi um homem bom. Alguns continuam com o seu número de gravado no telemóvel. Ainda não aceitam que ele não possa atender.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Arauaco

Nas montanhas da Colômbia o povo Arauaco Ika, chama ao que nós chamamos Deus, o Irmão Maior. Chama-nos a nós, o Irmão Mais Pequeno . Sucessivamente fazem uma rota de peregrinação entre o mar e o topo montanha a mais de 5000m de altitude. Oferecem ao Mar pedacinhos de plantas que recolhem na montanha, e oferecem à montanha conchas e amostras de flora que recolhem na orla costeira. Os Mamos, autoridades espirituais que fazem estas longas viagens a pé, intercedem por nós junto do Irmão Maior. Têm compaixão pelo nosso sofrimento quando as catástrofes nos atingem e pedem pelo nosso bem estar. Mais do que isso, pedem para que recuperemos a consciência e a nossa própria identidade de seres humanos entre todos os outros seres e energias da Terra Mãe.

sábado, 9 de janeiro de 2010

No fim do arco-íris o pote de ouro.

Para as felosas o pote de ouro é o mel e as pastas de frutos que eu lhes sirvo. Para mim o pote de ouro são as visitas destas pequenas aves acrobáticas e delicadas com gestos de colibri.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A garça,a raposa e as papas.

Passava a raposa junto à casa da garça quando ao seu apurado nariz lhe chegou um maravilhoso cheiro a cereais com caramelo. -Que cheirinho a papas de aveia. Um pratinho de papas caramelizadas como estas e acabavam-se as penas. As penas e as galinhas! -A garça que não era galinha mas também tinha penas ouvindo este desabafo da raposa ficou sensibilizada e decidiu convidar a raposa para comer papas. Porém sabendo da falta de modéstia e da matreirice da raposa não resistiu a pregar-lhe uma partida: Atrás da porta gradeada do seu quintal ofereceu à raposa uma bela almotolia cheia de papas. A raposa andou em volta do recipiente mas não conseguiu meter a língua ou o dente no estreito orifício do gargalo. Bem chupou o bico mas as papas estavam espêssas e não houve maneira de por lá correrem. Acabou por desistir, e a sua gula insatisfeita, transformou-se em fome. Orgulhosa, e não querendo pedir o que quer que fôsse a alguém a raposa interpelou a garça: -Amanhã sou eu a oferecer o almoço e não aceito uma recusa como resposta! -A insistência da raposa não teria qualquer efeito na garça, mas a curiosidade em saber como retribuiria ela a sua partida levou-a a aceitar o convite. No outro dia a garça lá compareceu pousando num ramo bem alto da árvore sob a qual a raposa tinha uma toca. -Bem vinda amiga garça tomei a liberdade de lhe preparar umas papas de milho torrado. Deixei-as ali num prato a arrefecer bem no meio do descampado para minha amiga estar á vontade sem ninguém por perto a incomodar. -Era verdade. No meio do campo verdejante, um grande prato de papas de milho com couves cortadas em tiras fininhas, fumegavam aromatizando o ar. A garça voou para lá e tentou comer, mas o seu bico longo e fino tão adequado a entrar em gargalos de almotolias e outros buracos fundos, não funcionava numa superfície plana. O prato raso, sem qualquer concavidade, impedia-a de apanhar quantidade que a alimentasse. Experimentou pôr de lado o seu bico mas sem sucesso, não conseguia comer nada. Para não ficar mais tempo exposta esvoaçou de volta para a árvore. -Então não gostou? Não come mais? -Perguntou a raposa trocista. -Eu como pouco amiga raposa e qualquer pedacinho me deixa cheia. -Respondeu a garça. -Temos de almoçar mais vezes mas da próxima vez a amiga raposa leva o seu prato, e quando me convidar eu trago a minha almotolia. -Está combinado disse a raposa.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Microcrédito-Kiva-Fraternidade.

www.kiva.org ___________________ Se por acaso desistirem de ir jantar fora. Ou se prescindirem do tal jogo de vídeo, ou do tal sucesso do top livreiro. Se enfim, não forem ver aquele jogo de futebol, ou dispensarem aquela saída à noite e pouparem uns tantos copos e uns tantos cigarros: Então... Sobrar-vos-ão alguns trocos! Esses trocos fazem a diferença para inúmeras pessoas em todo mundo. A maioria vive em zonas em que 25€ valem muitíssimo. Este dinheiro que gastamos numa ída ao restaurante é quanto a Kiva toma como unidade básica de empréstimo a pessoas empreendedoras sem recursos para criação ou expansão da sua actividade. Há agricultoras e cabeleireiros, educadoras e retalhistas, vendedores de rebuçados e costureiros, é só escolher. Podeis eleger uma actividade em deterimento de outras. Podeis escolher um país ou um continente. Podeis priveligear quem pede pouco ou quem pede muito. O vosso dinheiro é sempre devolvido, pois há fiadores que se responsabilizam pelo empréstimo que queirais fazer. No fundo são migalhas, mas são migalhas do vosso prato. Mesmo as migalhas que largais para alimento dos pássaros são fruto da vossa bondade

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Texto escrito numa tabuínha de madeira antiga.

"Caminhámos longamente Atravessámos desertos Sabemos agora serem todos os lugares desertos Desertos de pedra Desertos de areia Desertos de água Mas o deserto que tememos por crescer mais rápido que todos os outros é o que faz secar o coração das pessoas Ajuda-nos Senhor e liberta-nos da estreiteza e da secura que cresce em nós."

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Menino Jesus, Mitra, Chanucá e o Solstício de Inverno.

Chegou o mais pequeno dia como se as trevas avassaladoras fossem tragar a luz e toda a criação. Todas as culturas que vivenciaram este fenómeno ao longo dos tempos foram construindo histórias para o explicar. A nossa matriz judaica comemora por esta altura o Chanucá, a festa das luzes. O que estão comemorando, entre outras tradições orais arcaicas é a vitória de Judas Macabeu à frente de um punhado de pastores na guerra de recuperação da cidade santa de Jerusalém contra os Sírios selêucidas(164 a.C.). Judas Macabeu, literalmente Judas o Martelo (martelo no sentido de clava de guerra) impediu a aniquilação do povo judeu e mais do que isso impediu a aniquilação da sua cultura que naqueles tempos remotos significava a perda da sua religião e da sua identidade pois os selêucidas tinham cultura helénica e queriam impô-la aos outros povos. Após a reconquista de Jerusalém, era necessário purificar os locais profanados. Durante a celebração e purificação da cidade e do templo era necessário acender uma luz a Chanucá durante um tempo determinado para que houvesse purificação. Para esse fim foi encontrado um só vaso de azeite abençoado, não havia mais azeite e o pequeno vaso era manifestamente insuficiente. Por outro lado o azeite do ano estava ainda por fazer porque as azeitonas ainda se estavam a colher nas oliveiras. Ora este azeite que deveria ser bastante para um dia durou uma semana iluminando dia e noite e dando tempo a que o novo azeite saísse do lagar e fôsse abençoado pelo Sumo Sacerdote. Este milagre é a festa das luzes, tantas quantos os oito dias que essa luz primordial se manteve acesa. ................................... A nossa matriz Greco-Latina bebeu em fontes persas e hindus. A renovação da luz pelo nascimento de um Deus Sol vitorioso sobre as trevas. Mitra é esse Deus Sol. É representado por um menino muito semelhante ao que hoje é o Menino Jesus. Em louvor de Mitra sacrificavam um touro negro que simbólicamente era uma encarnação do mundo das trevas, das cavernas e grutas e também a encarnação das forças obscuras e da Lua............................................. O Cristianismo Romano vem calcar e recalcar toda esta imensa iconografia simbólica e apropriando-se da realidade existente, transforma-a à sua imagem: Duzentos anos antes do Cristianismo ser considerado por Roma como a religião do Estado, já o deus Mitra tinha sido adoptado pelos exércitos de Roma que espalharam santuários por todo o império. A estes santuários ofereciam pequenas figuras esculpidas ou moldadas, os ex-votos. A representação de Mitra como Deus solar que faz renascer a luz, da treva, usando a figura de uma criança masculina recém nascida conjuntamente com um touro sacrificial, ou a ser sacrificado era comum. Hoje mantêm-se no presépio sem que deles suspeitemos. O Presépio Cristão tem antepassado nestes altares a Mitra que terão talvez inspirado a pedagógica representação que posteriormente terá sido feita por S. Francisco de Assis. Sem que saibamos a vaquinha no estábulo do nosso presépio é a figura do sacrifício a Mitra e o testemunho da vitória da luz sobre a tenebrosa escuridão. Mitra é agora o menino Jesus. Curiosamente no Império Romano, Mitra tinha uma data de nascimento estabelecida que era precisamente o correspondente ao dia 25 de Dezembro. Esta data fixa sobrepôs-se à data móvel do solstício. O solstício que tem variado entre o dia 20 e 25 durante estes séculos da nossa experiência. Por estarem mais familiarizados com Mitra os cristãos do Oriente continuam a comemorar o nascimento de Jesus noutro dia. ................ A nossa raiz muçulmana aparentemente não liga a esta data, mas sem dúvida respeita-a formalmente ou não fosse Cristo um dos cinco mais perfeitos profetas e o mais importante imediatamente a seguir a Maomé. Além disso esses nossos antepassados que vieram invadir a península Ibérica pelo séc. VIII e XIX da nossa era, eram instruidíssimos comparativamente com a rude e analfabetizada nobreza medieval. Falavam mais do que uma língua além da sua, sabiam cálculo matemático, geometria, astronomia; tocavam instrumentos musicais, declamavam poesia, escreviam e liam. Não nos podemos esquecer que foram eles que terão inspirado Carlos Magno a aprender a ler e a escrever, e a deixar de escrever os caracteres latinos na forma que hoje chamamos letra maiúscula, para os escrever de forma cursiva sem levantar a ponta da cana (caneta) como os Mouros faziam e tal como hoje fazemos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Nicholas Oulman -"Com que voz"

O fado que hoje conhecemos cantado por tanta gente mais nova não seria possível sem a refundação que um grande compositor levou a cabo durante a década de sessenta e setenta do século passado. Chamou-se e chama-se Alain Oulman pelo menos enquanto continuarmos a cantar as suas músicas pelas ruas. O filme que é um documentário precioso, mostra como Alain Oulman soube perceber uma intérprete como Amália, e entender como ela poderia cantar fados com maior amplitude melódica e de maior complexidade harmónica. Como seria possível com a melodia certa fazê-la cantar grandes poemas, de grandes poetas. No filme, Amália diz que estava à espera daqueles fados. Alain Oulman podia ter sido só o compositor que conhecemos e não teria sido pouco, mas foi compositor enquanto trabalhava diáriamente gerindo os negócios da sua família, e não só. Foi dramaturgo, encenador, director de actores...e tantas outras coisas até acabar por ser editor na "Calmann-Levy" pertença de um tio seu. Foi editor de Catherine Clement, Patricia Highsmith, Amos Oz. Um editor como poucos foram, de maneira gentil e sem forçar ou impôr a sua vontade, a verdade é que foi capaz de criar as condições para que os seus escritores dessem o melhor de si próprios.------------------------------------------------------------------- Nicholas Oulman é filho de Alain Oulman, a produção do filme não lhe foi facilitada por isso, não teve apoios nem das estações de televisão nem das entidades estatais que gerem fundos para possibilitar a realização cinematográfica. Argumentavam que não tinha currículo. Na verdade Nicholas, em Portugal e no estrangeiro, sempre trabalhou em cinema em curtas metragens realizando, coproduzindo etc. Finalmente Paulo Sousa foi o produtor principal que assegurou a possibilidade do filme ter sido feito.------------------------------------------------------------------------ O filme é belíssimo, começa com a imagem deslizando ao longo do interior do piano que Alain tinha na sua casa de Paris e que hoje se encontra no Museu do Fado. Familiares e vários entrevistados vão-nos contando o que guardam de Alain e daqueles dias difíceis. Os testemunhos dão-nos a imagem indirecta de Alain. As fotos em detrimento da imagem em movimento aumentam a necessidade de ver aquela pessoa de que ás vezes se ouve a voz, por fim Alain aparece. Ao piano vai tocando para Amália uma música que compôs e canta na sua voz profunda quase em surdina. Canta um poema de Cecília Meireles: "Soledad". A música é lindíssima. Amália canta também recebendo o poema e a música entendendo cada nota, cada sílaba. O poema parece feito à medida daquela música de tal forma com ela se casa. Entre compositor e cantora percebe-se uma admiração mútua, uma reverência e respeito perto da veneração. Sendo pares e geniais ambos preferem dar a primazia ao outro... ... ... ... ... ... ... O filme acaba. Enquanto passa a ficha técnica, continuamos o ouvir as vozes de Alain Oulman e Amália Rodrigues cantarolando e trauteando a música. Sem as suas presenças que as imagens tornavam quase físicas começamos a sentir a profunda saudade da sua ausência. Uma dor fina sobe do peito aos olhos, e estes ficam molhados. Nicholas Oulman conseguiu nas imagens do seu filme materializar a Saudade, e o Fado. Nicholas Oulman esteve na apresentação do filme e pareceu-me um ser especial, modesto e delicado, que recusa o vedetismo fácil. A sua presença física e a sua atitude faz lembrar o seu pai, mas também Amália. O poema de Cecília Meireles nunca foi gravado por Amália. Parece que direitos autorais não deixaram até hoje que o poema se recolha naquela melodia de beleza indescritível. Era uma justiça que faríamos à memória da poeta, do compositor e de Amália. Era uma forma de tributo ao filme e a Nicholas Oulman.