domingo, 27 de março de 2016

EXODUS

Hoje lembrei-me de uma pintura da Vieira da Silva. Chama-se "História Trágico Marítima". Nunca pensei quando a vi pela primeira vez que a sua actualidade pudesse vir ser comprovada diáriamente através de naufrágios sucessivos transmitidos em directo pela televisão.
Continuadamente sem auxílio o êxodo continua. Não é já uma história bíblica de judeus que fogem da escravidão no Egipto. São povos nossos contemporâneos que fogem da morte, da guerra, e da miséria.
Que hipocrisia então viver a Páscoa ignorando o que ela significa.

 

sábado, 26 de março de 2016

Hemicrânia.

Levei a semana
 a sonhar
com a bebedeira de Sábado.
Hoje Sábado,
acordei com uma dor de cabeça tão forte
que já estou na ressaca.

sexta-feira, 25 de março de 2016

domingo, 20 de março de 2016

Canto Geral - Vegetações. Poesia de Pablo Neruda com Música de Mikis Theodorakis




Primavera. Hoje lembrei-me de Mikis Theodorakis, de Pablo Neruda e de Maria Farantouri.




VEGETACIONES
 
A las tierras sin nombres y sin números
bajaba el viento desde otros dominios,
traía la lluvia hilos celestes,
y el dios de los altares impregnados
devolvía las flores y las vidas.

En la fertilidad crecía el tiempo.

El jacarandá elevaba espuma
hecha de resplandores transmarinos,
la araucaria de lanzas erizadas
era la magnitud contra la nieve,
el primordial árbol caoba
desde su copa destilaba sangre,
y al Sur de los alerces,
el árbol trueno, el árbol rojo,
el árbol de la espina, el árbol madre,
el ceibo bermellón, el árbol caucho,
eran volumen terrenal, sonido,
eran territoriales existencias.

Un nuevo aroma propagado
llenaba, por los intersticios
de la tierra, las respiraciones
convertidas en humo y fragancia:
el tabaco silvestre alzaba
su rosal de aire imaginario.
Como una lanza terminada en fuego
apareció el maíz, y su estatura
se desgranó y nació de nuevo,
diseminó su harina, tuvo
muertos bajo sus raíces,
y luego, en su cuna, miró
crecer los dioses vegetales.
Arruga y extensión, diseminaba
la semilla del viento
sobre las plumas de la cordillera,
espesa luz de germen y pezones,
aurora ciega amamantada
por los ungüentos terrenales
de la implacable latitud lluviosa,
de las cerradas noches manantiales,
de las cisternas matutinas.
Y aun en las llanuras
como láminas del planeta ,
bajo un fresco pueblo de estrellas,
rey de la hierba, el ombú detenía
el aire libre, el vuelo rumoroso
y montaba la pampa sujetándola
con su ramal de riendas y raíces.

América arboleda,
zarza salvaje entre los mares,
de polo a polo balanceabas,
tesoro verde, tu espesura.

Germinaba la noche
en ciudades de cáscaras sagradas,
en sonoras maderas,
extensas hojas que cubrían
la piedra germinal, los nacimientos.
Útero verde, americana
sabana seminal, bodega espesa,
una rama nació como una isla,
una hoja fue forma de la espada,
una flor fue relámpago y medusa,
un racimo redondeó su resumen,
una raíz descendió a las tinieblas.


Pablo Neruda 


 


domingo, 6 de março de 2016

Até depois Nikolaus.

Dizem que Nikolaus era um homem bom, incapaz de dizer mal de alguém, atormentava-se com a maldade humana especialmente a de seres tocados pelo dom da música como ele próprio. Como João Sebastião acreditava que a música podia melhorar o ser humano face a si próprio e aos outros seres de toda a natureza.


Souci.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

A visão do escorpião.

Fiz um teste de visão desses que poluem os ambientes virtuais das redes sociais. Tenho a visão de um piloto; piloto de avião, era o que a imagem que acompanhava o teste sugeria.
Não fiquei espantado com a minha aptidão pois já antes tinha feito teste semelhante que me colocava num grupo restrito dos que têm olho de falcão o que para efeitos de vôo também serve.
 O teste da visão de piloto tem "glamour" é sem dúvida uma qualidade excepcional ter um olho em terra de cegos. É sem dúvida extraordinário ver melhor que a maioria se isso possibilitar andar pelos céus; tem "charme" andar pelos céus como uma rapina. Se daí resultar que parceiras sexuais se proponham querendo acasalamento pelo amor da reprodutibilidade genética tanto melhor.
Se o teste propusesse por comparação a visão de um caldeireiro, de um forneiro; ou de um serralheiro, de um torneiro, de um rectificador quem o faria? Quem quereria ser equiparado a eles. 
Eu que fui metalúrgico por 9 anos e que falava com eles, conheci forneiros que da boca do forno olhavam para o interior dos seus infernos de chamas e conseguiam dizer a que temperatura estava aquele ambiente com menor erro de leitura do que aquele que os instrumentos de leitura óptica permitiam: "Está a 1230 graus tem de subir até 1280!" 
Conheci fresadores e torneiros cujo olhar detectava erros de décimas de mílimetro.
Rectificadores que avaliavam a rugosidade das suas peças com a precisão de dezenas de mícrons.
Lembrei-me então de coisas dolorosas ligadas à penosidade do mundo do trabalho. Lembrei-me do virtuosismo mal pago e desvalorizado inerente a qualquer profissão artesanal a não ser que ande de mão dada com hábitos de parolos endinheirados e que seja rotulada com as palavras bacocas como excelência, top, espectáculo...   
 Lembrei-me então que não se deve confundir a visão do escorpião com o avistamento do escorpião. E que mesmo de noite quando não o vemos,  ele brilha no escuro.



 

Tempo bissexto.



















O tempo é um furtivo sedutor que explora a nossa avidez, de alguma maneira desejamos aquilo que nos dá sem reparar naquilo que nos tira.







terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Mestre Pedro.


Os ferros do vidreiro.

A pinceta.

O maço do mestre vidreiro.





























Os maços são ferramentas de madeira de sobreiro, plátano, cerejeira e alguma outras, usadas na modelação do vidro trazido na cana de soprar após a colheita no forno.

...dar maço.

O vidro em fusão que é colhido do forno com a cana para ser soprado pelo vidreiro é trabalhado e moldado com uma espécie de concha de madeira que está de molho em recipientes com água para que a madeira não arda com a alta temperatura a que está o vidro. O mestre vidreiro prepara assim a esfericidade do material a ser soprado comprimindo-o na forma de uma pêra ou alongando-o até à forma de uma bolota.

A Sopa do Vidreiro

O forno nunca se apaga.



























A Sopa do Vidreiro
Escolhem-se duas remediadas postas de bacalhau do rabo, ou uma da cabeça e cozem-se num tacho. Retiram-se quando cozidas e na mesma água vão a cozer quatro batatas médias cortadas às rodelas grossas. Enquanto as batatas cozem, desfia-se o bacalhau e retiram-se-lhe as espinhas. Tiram-se as batatas cozidas e no caldo escalfam-se dois ovos. Apaga-se o lume retiram-se os ovos escalfados. No tacho afundam-se quatro fatias de pão de trigo que se cobrem com as batatas, tempera-se com azeite e junta-se por cima duas fatias de broa de milho esfareladas quatro dentes de alho e o bacalhau desfiado. Por esta altura o caldo deve ter sido absorvido pelo pão. Se houver ainda caldo, adicionar mais broa depositar por cima os ovos escalfados e cobrir com salsa picada ou hortelã. Tampa-se o tacho que se coloca num pano e amarram-se-lhe as pontas em cruz para que não arrefeça. No tempo da fábrica colocava-se dentro de um cestinho de vime. Acompanha-se com uma garrafa de vinho. E leva-se ao vidreiro.

Os ingredientes são para duas pessoas mas com as mesmas quantidades comem 4 desde que se acrescente o pão e os ovos. A sequência de cozedura dos ingredientes tem a ver com o tamanho do tacho e do fogareiro a carvão ou a petróleo onde era cozinhado.
Não há receita que não tenha variantes e assim soube de sopas que levam couves, outras levam menos bacalhau, outras em vez de alho cru este é cozido com o bacalhau, algumas levam louro quando o bacalhau vai a cozer. Na verdade as variações interrompiam a monotonia do paladar e proporcionavam diferentes sabores e aromas para a mesma receita base.
Devido à exposição a temperaturas ambientes elevadas a sudação continuada provocava a desidratação dos vidreiros e fazia com que perdessem muitos sais. O sal do bacalhau era importante na reposição desses elementos no organismo dos vidreiros nomeadamente o sódio e o magnésio.






sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O encontro de Fernando Pessoa com James Joyce num azulejo de 15cm

Na altura que pintei este azulejo tentava reproduzir a ideia que tive anos antes e que fácilmente deu origem a vários azulejos avulsos . Colocar escritores do meu agrado falando uns com os outros: Camões com Bocage, Florbela Espanca com Cesário Verde, Conrad com Pessoa, Pessoa com Joyce, etc.
Tenho dificuldade em copiar e reproduzir em série uma imagem mesmo que ela seja minha. O incentivo para mim é criar, não é copiar. Quando parece que copio um tema estou fazendo uma variação desse tema. Ou então estou a tentar resolver o que eu julgo não estar conseguido na forma, na composição, na mensagem ou onde quer que seja. Se por ventura estiver fazendo uma cópia, mesmo que seja mental, de alguma coisa que é minha autoria e o objecto que copio não esteja sequer presente, o meu subconsciente desaprova e a coisa não flui. Não me dou bem com a reprodução em série.
O azulejo que aqui mostro é daqueles que coloquei de lado. Ao sair da mufla avaliei o resultado e não estando dentro das expectativas coloquei-o de parte. Em termos indústriais é daqueles que não passou a triagem da mesa de escolha por apresentar defeito. 
O defeito resulta da reticência relativa à cópia que descrevi em cima. No caso deste azulejo  manifestou-se materialmente no resultado da execução da pintura. O pincel não deslizava uniformemente sobre o vidro, prendia aqui e ali. Tenho de explicar que nesta altura o vidro crú assemelha-se a uma camada de pó compacta muito porosa e absorvente, só depois de ir a um forno a mais de 1000 graus centígrados é que fica com a vitrificação que conhecemos dos azulejos das paredes. Nesse processo de cozedura as cores também se alteram e as camadas de pintura revelam-se em profundidade e intensidade.
Além do pincel não deslizar a diluição do corante que eu utilizava para pintar não mantinha a mesma concentração fluía ora muito espêsso ou tão diluído que quase só água ficava no traço que deixava. Na pintura de azulejo a humidade intensifica a tonalidade da cor no momento em que se pinta; uma vez enxuta só a camada superior da pintura é visível pois que também ela é um pó opaco que se sobrepõe ao pó do vidro da base, isto torna difícil avaliar até que ponto a opacidade é efectiva e suficiente. Só com a cozedura se revela o resultado final.


Neste azulejo fica patente que há linhas finas e fluidas com o mesmo valor de pigmentação e outras que se arrastam e empastam esborratando aqui e ali em larguras não pretendidas. Nas palavras escritas isto é patente para o olhar menos treinado.
A pintura de azulejo quando executada sem desenho prévio é um desafio para o olhar, para a mão e para o espírito. É semelhante a uma caligrafia, semelhante à escrita oriental de caracteres. A velocidade da mão não pode ser diferente da velocidade com que o pensamento dita o que a mão escreve porque o olhar apercebe-se, o pensamento impacienta-se e a mão vacila.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Louro.

  
Uma reflexão sobre a liberdade e a música. 
    (Para o Diogo que gosta da iconografia ligada às tabernas.)

domingo, 31 de janeiro de 2016

No rescaldo do dia de ontem o meu agradecimento à Melissa.























Os compositores sempre tomaram trabalhos de outros compositores para os adaptarem ao seu próprio gosto. Usando-os como mote para desenvolvimento da sua própria ideia, glosando temas, improvisando à maneira do que hoje nos é familiar na música Jazz.
Grieg adorava a música de Mozart como de resto hoje é consensual gostar-se de Mozart, mas no tempo em que Grieg viveu, Mozart era considerado fora de moda e considerado uma segunda escolha, uma música para tirocínio de intérpretes principiantes. Nessa altura em pleno romantismo Grieg decide escrever a sua música para acompanhar a de Mozart, talvez com esse espírito educativo mas também com o propósito de divulgação e de reverência a um compositor que ele admirava e o entusiasmava. 
O que Grieg fez foi manter Mozart íntegro num dos pianos e acrescentar a sua música num segundo piano. O resultado é mais reconfortante, é como se a música saísse do salão do palácio para a eira e ecoásse pelo vale até às montanhas. O entusiasmo de Grieg é patente quase como que o de uma abelha em volta de uma flor.

Fica aqui uma amostra da interpretação de Sviotoslav Richter e de Elisabeth Leonskaja já que não consegui a de António Rosado com Artur Pizarro.