segunda-feira, 1 de maio de 2017

Catarse (versão corrigida 2017)

Pelo ano de 1983 entre Abril e Maio, escrevi um texto vagamente poético que relatava a sensibilidade face à minha condição de operário metalúrgico. Sem saber estava a escrever uma elegia a um mundo em desaparecimento uma vez que tinha sido decidido acabar em Portugal com o alto-forno (1), e subsequentemente com a metalurgia e a construção naval. Apostava-se mais na importação de partes para montagem do que na industrialização de raiz com fabrico a partir da matéria prima.
A modernização tecnológica posterior acabou com as máquinas electromecânicas e semielectrónicas com que eu trabalhei e aquele hipocausto mudou para o outro lado do mundo.
O texto esteve perdido durante anos até agora. Fiz-lhe algumas correcções, e aqui o deixo com a ilustração de um pequeno painel de quatro azulejos, que pintei de memória, 20 anos depois em 2003.








O bucolismo que havia nos campos em redor
jaz entre bidons velhos, pedaços de plástico
e bocados de sucatas enferrujadas.
Há montureiras de entulho.
Por todo o lado despejos, 
braseiros de fogueiras fétidas, 
piras de lixo fumegando, cinzas...
Entre toda a desolação 
ovelhas seu pasto têm,
ruderais ervas as mantêm.
Mansas dormem na sombra 
de oliveiras tristes,
deitadas entre cardos
insubmissos e agrestes.
Negam a esterilidade 
à secura cáustica de venenos químicos.
Mesmo naqueles dias 
em que os pássaros cantam
e há flores abertas;
mesmo nos dias claros e quentes, 
em que as praias no mar da paisagem 
na linha do céu ao fundo 
estão cheias de banhistas;
os sentidos  não se comprazem 
no desconsolo daquela ruína.
Dos barracões gigantes como hangares
o ruído intenso e monótono espalha-se pela charneca: 
O estrépito cavo das prensas estremece o chão
e marca o tempo e o contraponto
do rítmico matraquear das alavancas, 
dos cadenciados estampidos hidráulicos das engrenagens, 
dos silvos pneumáticos dos dispositivos 
do rangido telúrico dos maquinismos…
Lá dentro há uma neblina:
óleos de arrefecimento são pulverizados 
continuadamente pela rotação dos tornos revolver,
pela fricção dos apalpadores nas árvores de excêntricos,
pelo esmagar das esperas contra os braços que as enlaçam,
pelos ferros que arranham ferro e arrancam limalhas.

Há poeiras corpusculares em suspensão 
atomizadas pelo corte dos diamantes
e pelos jactos de água
nas mós saturadas das rectificadoras.
De outra nave sobem vapores espêssos
fumos turvos dos tanques de imersão 
dos metais incandescentes
no óleo da têmpera.
Gases voláteis dos desengordurantes
suspendem-se nas tinas
até às serpentinas de condensação. 
 
Aquele nevoeiro sem esperança 
rompe-se duas vezes por dia,
solenemente, antes do vazamento.
Oficia o mestre forneiro
após a correcção da liga,
lançando o desescoriante magnésico 
naquela lava metálica líquida,
e então daquele rubor incandescente
sobem no ar em aparição
clarões de relâmpagos atordoantes
e os olhos parecem cegar
atrás das pálpebras cerradas.

Naqueles pavilhões os ciclos mecânicos, 
tornam reflexos e automáticos 
os gestos que os manobram e controlam, 
repetitivamente idênticos como os engenhos.
Um calor intenso dilui-se dos esforços
os corpos metálicos rugem febris
com o arfar dos corpos carnais que os operam.
Óleos maquinais e suóres misturam-se,
circulam em refrigeração,
naqueles corpos animais e animados
por vezes é aspergido  sangue.
Nos barracões profundos e escuros
o sol que nunca se põe
está ali sobre as cabeças
muito branco e intenso
concentrado em tubos de gases raros
em descargas contínuas
cinquenta vezes por segundo
fluorescente em si mesmo.
Nos barracões disformes, 
o tempo cronométricamente
expressa-se na na produção a cumprir, 
na precisão e no rigor
sem espaço para a falha,
afirma-se na intolerância,
nos "zero defeitos"
na ininterruptibilidade,
na velocidade de execução.

Rotativamente em ciclos, 
corpos substituem corpos
ausentes temporáriamente,
em pausa para dormir, 
comer e se recriarem.
Sempre da mesma maneira,
exaustivamente:
Três vezes oito horas por dia. 
Em turnos contínuos.

Passaram já oito horas desde que cheguei para o recomeço.
Limpo as mãos ao desperdício de trapo.
Interrompo as máquinas:
reponho-lhes ferros afiados,
troco as pastilhas sinterizadas de metal duro, como diamante.
Meço, afino tolerâncias, verifico calibres;
confirmo com calas e padrões,
retomo o funcionamento,
refaço as minhas medições,
com o rigor das dezenas de mícron,
reinicio o andamento das máquinas.
Cumprimento o camarada que me veio render. 
Entrego ao chefe de turno o meu gráfico de produção
e as peças que maquinei. 
Saio para os vestiários.
Abro os meus cacifos.
Como se tirasse a própria pele
dispo a camisa de cotim ultramarino salpicada de óleo, 
descalço as botas gordurosas
sacudo-lhes a serradura polvilhada
com que é semeado o pavimento escorregadio da oficina,
às narinas vem-me de novo o incenso do pinho.
Tiro as calças manchadas pela farinha cinzenta do aço moído,
hoje ganhei na ilharga algumas mascarras de fuligem.
Foi nas garras dos cêstos de têmpera que vieram do revenido.
Sacudo a roupa para largar as limalhas mais finas.

Do cacifo da roupa limpa retiro
o cubo de sabão azul e branco e a toalha. 
Dirijo-me ao balneário
Passo pelas fileiras de lavatórios. 
Entro num cubículo com chuveiro 
abro a água e fico ali 
na eternidade breve daquele duche
sob a cascata de água tépida,
ungido de sabão a derreter,
esvaindo na espuma os óleos, 
o suór e a atenção concentrada 
a que fiquei obrigado durante oito horas. 
Aos poucos os músculos perdem a tensão, 
a moínha do corpo cansado alastra num afago morno.
Visto-me com a roupa de andar na rua 
sem as cores e os odores da ganga e do trabalho.
Penteio-me. 
Tenho as unhas limpas,
mas o fedor do petróleo permanece nas minhas mãos, 
com a escova não o consegui arrancar da pele
nem ele se diluiu com o sabão na água quente. 
Nem dos poros consegui arrancar o finíssimo pó metálico 
que os assinalou visíveis e cinzentos. 
Saio cá para fora. 
Na rua o ar matinal parece mais fresco,
mais limpo que o ar nocturno.
Noutro barracão pico o meu cartão no relógio de ponto.
Tenho a garganta sêca e o autocarro para apanhar.
Passaram dezoito minutos desde que larguei as máquinas
Vou a uma tasca beber uma cerveja rápida… Duas... Três!
Reponho a água que deixei agarrada ao fato de trabalho. 
O relaxamento muscular é mais completo 
a serenidade apodera-se de mim. 
Volto para casa. “Quase nove horas!”
Ao longe, no fio do horizonte, a cidade. 
Adivinho-lhe, o frenesim que precede o trabalho diário. 
É a hora de ponta.
Nos ouvidos o silvo residual 
do barulho ensurdecedor da fábrica. 
Entro numa espécie de letargia 
ausento-me e flutuo imponderal.
Acontece-me assim sempre 
depois do último dia de trabalho,
no turno da noite.
Mesmo quando não bebo umas cervejas.
Sinto-me bem!
Limpo e de corpo lavado,
dentro da roupa de andar na rua.
Entro no autocarro,
sento-me no banco como se caísse na cama, 
e adormeço.

 



(1) (As palavars não são minhas mas sim do insuspeito António Champalimaud.)






quarta-feira, 26 de abril de 2017

Hoje que passam 31 anos sobre o desastre de Chernobyl temos de falar de Fukushima. Mas também temos de ter a consciência que junto a nós temos Almaraz e a ganância, a avidez e a arrogância radioactiva do Estado Espanhol.

Não houve tempo ainda. Talvez não venha a haver tempo para se falar e editarem livros sobre Fukushima. O regime não é Soviético, é outro. O tempo não é de esperança, o tempo é outro, a inocência só se perde uma vez e isso aconteceu há 31 anos. 

Em tempos tentei explicar a um colega que pensava que numa central nuclear a energia era retirada directamente do átomo com o uso de processos do domínio da ficção científica. Disse-lhe que o funcionamento de uma central nuclear grosso modo era uma grande panela de pressão que produzia vapor. Recentemente ouvi uma investigadora da área referir-se ao aproveitamento da energia nuclear como "Uma chaleira de água a ferver que não lembraria ao Diabo". Aprendizes de feiticeiro que somos, iniciámos já um caminho sem retorno que levará à nossa perdição. Estaremos talvez já a viver a profecia bíblica do "fim dos tempos".

Em Fukushima hoje, como há 31 anos em Chernobyl, oculta-se a informação. Dissimula-se a verdade.
Em Chernobyl invocava-se a necessidade de não criar alarmismo, em Fukushima a receita é a mesma, mas a dimensão da tragédia é de dimensão apocalíptica. Em Fukushima as populações evacuadas estão a ser ameaçadas com a subtracção dos apoios até agora prestados e assim forçadas a regressarem às zonas contaminadas de onde fugiram. A perda de contaminantes na água de arrefecimento do material radioactivo que continua em fusão e em afundamento no solo continua para os níveis freáticos e para o mar, e apesar das notícias para o mundo dizerem que tudo está bem, continuamente sem solução, são armazenadas 400 toneladas por cada um dos três reactores que derreteram e se mantêm em fusão Todos os dias esta água é armazenada em tanques precários onde já são detectados vazamentos.

 

 
As previsões para a descontaminação dizem que o trabalho durará por 100 anos e que a tecnologia para recolher o material em fusão ainda não foi inventada. Possivelmente nunca o será, e a solução será encerrar o material radioactivo que permanentemente produz calor e funde a temperaturas que podem atingir os 5000 graus Celsius, dentro de sucessivas caixas de betão, como se de uma colossal Caixa de Pandora se tratásse.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Menina com livros; Menina Europa; Menina num jumento.




Não me lembro já porque fiz estes azulejos. Acontece por vezes recordar a imagem e não o motivo porque foi feita. Pelo traço sei que a imagem foi sendo pintada sem plano prévio o que é frequente.
















Costumo desenhar conforme o traço vai surgindo num processo quase automático. A única regra é não utilizar formulários ou cair em maneirismos o que se torna por vezes tão difícil que não se consegue evitar. Mas é o risco de quem desenha de memória.
É também um jogo cerebral em que a parte consciente, e a memória, mais conformistas aplicam soluções já antes utilizadas.











  






 Durante o processo achei engraçada a ideia de trocar os azulejos e uma cabeça poder ter outro corpo.

domingo, 23 de abril de 2017

O vento.

Claude Simon escreveu um livro extraordinário chamado "O Vento".


 

Conversas picantes.


Por vezes os azulejos não saem mal de todo. Neste azulejo avulso tinha a ideia de sugerir o ambiente de farsa vicentina em que um velhaco tenta seduzir uma mulher mais jovem com o seu palavreado bem temperado e saiu isto.



Nos azulejos por vezes parece que os traços e as cores andam a dar pancada umas nas outras.


A culpa deste teatro todo. Direi mesmo desta fantochada é da inabilidade do pintor de azulejos. Um troca tintas sem jeito oficinal ou talento artístico capaz, para coisa que se veja com agrado. 



sábado, 22 de abril de 2017

...e as coisas na pintura de azulejos podem correr mal. Correm mal até no azulejo de Dédalo.


As asas não aguentam, as articulações ganham a borrachite elástica dos desenhos animados e ele Dédalo, o único homem de barba lãzuda que não dá vontade de rir, o único digno em de toda a fornada, não deixa de parecer ridículo e desbotado. 
Não esquecer nunca que o manganês é para ser retinto e o azul cobalto é para ser ligeiro.



 

Pintar azulejos avulsos não é difícil mas:

Há dias que as cores não combinam e o desenho que o pincel faz também não.

 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Hipocampo azul de azulejo.

Ao menos os cavalos marinhos podem ser azuis. Profundamente azuis de tão transparentes. Abissalmente azuis de tão distantes. Estão em vias de extinção por causa dos seres humanos que os apanham como troféu. Ao menos que os desenhassem ou pintassem, mesmo que não fosse em azul; em azul de azulejo.




Azul quadradinho pequenino.

Além dos problemas de tonalidade quem pinta azulejos, nomeadamente estes quadradinhos de 14X14 ou 15X15 centímetros, sabe bem da dificuldade de arrumar uma figura em espaço tão exíguo. Como se já não bastasse o azul teimar em não ser terrestre ou celeste ou... ... ...

quinta-feira, 20 de abril de 2017

AZUL CELESTE / AZUL TERRESTRE / AZUL CELESTE

Voltei a pintar azulejos e quem pinta azulejos sabe que as intensidades de uma mesma tonalidade podem ser um problema. Eu ando com problemas de azul. O que é grave bem se vê.

Don't Leave Me This Way



A versão original de Harold Melvin & The Blue Note:


A versão de Thelma Houston que tornou a canção um sucesso:

A versão com um tempo mais rápido que dez anos depois foi interpretada pelos The Comunards:



quarta-feira, 12 de abril de 2017

sábado, 11 de março de 2017

Almaraz é aqui ao lado e Castela de má memória fica ainda aqui tão perto. Faz hoje seis anos que aconteceu o acidente nuclear de Fukushima.

Quando o desastre de Fukushima aconteceu e preocupado segui o desenvolvimento da crise nuclear e a contaminação radioactiva, deparei-me com o labirinto complexo da equivalência entre unidades de medição da radiação.
A partir dessa altura não só os japoneses mas todos nós ficámos expostos a essa contaminação crescente.
Torna-se difícil saber do perigo e dos riscos a que estamos submetidos com tantas unidades de medida utilizadas, com múltiplos e submúltiplos. Com tantos critérios de avaliação diferentes não se sabe fácilmente, ou pelo menos eu não sei, o que é radiação considerada "normal", "aceitável" ou "danosa".

As principais unidades são o Sievert e o Gray mas há muitas outras como o Rad, o Röntgen, o Becquerel, etc. O Sievert é talvez a unidade de medida de radiação que parece mais explícita, mas é frequente ouvir ou ler que "uma dose de cerca de 500 R (Rad) em 5 horas é letal para os humanos" ou que "uma dose típica de radiação de fundo para um humano é de 200 mR por ano".
1 Rad = 0.01 Sievert 



O Sievert: (símbolo Sv)

O Sievert é uma unidade derivada do Sistema Internacional (SI) que mede a dose de radiação absorvida pela matéria viva, que é afectada pelos possíveis efeitos biológicos produzidos.

Esta unidade dá um valor numérico com o qual se podem quantificar os efeitos estocásticos ou seja os efeitos cumulativos aquilo que no organismo se acumulou.

São efeitos em que a probabilidade de ocorrência é proporcional à dose de radiação recebida, sem a existência de limiar. 

O que significa, que doses pequenas, abaixo dos limites estabelecidos por normas e recomendações de radio-protecção, podem induzir tais efeitos. 

Entre estes efeitos, destacam-se as doenças oncológicas. A probabilidade de ocorrência de cancro radio-induzido depende do número de clones de células modificadas e da consequente multiplicação no tecido ou órgão. A sobrevivência de pelo menos um destes clones é suficiente para garantir a progressão da anomalia, da doença cancerígena, isto dentro do processo normal de multiplicação e regeneração celular feita pelo nosso corpo. O período de aparecimento, detecção, do cancro após a exposição pode chegar até 40 anos. 

No caso de leucemia, a frequência do aparecimento da doença oscila entre 5 e 7 anos, com período de latência de 2 anos.



A diferença do Sievert (Sv) com o Gray (Gy)

O Gray mede a energia absorvida por um material (unidade de dose absorvida) é uma unidade de medida de protecção em radiologia e protecção radiológica para pessoas expostas a radiações ionizantes: Por exemplo em trabalhadores ligados à imagiologia médica que utilizem raio-X ou outras fontes de radiação, ou em pacientes submetidos a tratamentos de radiologia. Esta energia absorvida medida pelo Gray é diferente da dose efectiva que mede o Sievert que já é corrigido de forma a tomar em consideração o dano biológico.

Usa-se a equivalência 1 Sv = 1 Gy para as radiações electromagnéticas (Raios X e Gama) e para os electrões, mas para outras radiações deve utilizar-se um factor corrector que será de 20 para a radiação alfa, e de 1 a 20 para neutrões livres.
 

 Existem três modalidades de radiações denominadas alfa, beta e gama que podem ser separadas por um campo magnético ou por um campo eléctrico:

Radiação alfa (α):

Também chamada de partículas alfa ou raios alfa, são partículas carregadas por dois protões e dois neutrões, sendo, portanto, átomos de hélio. Apresentam carga positiva +2 e número de massa 4.

A radiação alfa é um tipo de radioactividade em que um núcleo de hélio é produzido. Por exemplo, o urânio 238 desintegra-se em tório 234 e em hélio 4. Este núcleo de hélio é assim chamado de partícula alfa. A partícula é positivamente carregada e maciça. Embora sejam partículas de movimento lento em termos de velocidade da luz, (atingem uma velocidade de 20.000 km/s) elas são extremamente perigosas dentro do corpo humano devido às queimaduras e outro tipo de lesões que podem provocar.

A radiação pode induzir a radioactividade artificial e em alguns elementos causar fluorescência. Apesar de serem bastante energéticas, as partículas alfa podem ser barradas por uma folha de papel, no entanto ocasionalmente a radiação alfa pode passar através de folhas metálicas finas sendo as partículas desviadas à medida que atingem os núcleos dos átomos na folha. Estas partículas alfa só podem alcançar uma pequena distância no ar antes de serem absorvidas.



Radiação beta (β):

Raios beta ou partículas beta, são electrões, partículas negativas com carga –1 e número de massa 0, assim também podem ser desviados por um campo magnético. Por exemplo quando um neutrão muda para um protão e os electrões de alta energia são ejectados do seu núcleo, isso é conhecido como radiação beta. Estas partículas carregadas negativamente movem-se entre 90 e 95 por cento a velocidade da luz e podem penetrar a pele humana. A radiação beta produz fluorescência e afectará materiais fotográficos, mas tem pouco poder ionizante.

As partículas beta são mais penetrantes e menos energéticas que as partículas alfa, conseguem atravessar lâminas de chumbo inferiores a 2 mm de espessura ou lâminas de alumínio até 5 mm no ar, mas são barradas por uma placa de madeira de 2,5 cm de espessura.



Radiação Gama (γ):

Raios gama ou radiações gama são ondas electromagnéticas. São semelhantes aos fotões não têm carga e a sua massa é quase nula. Emitem continuamente calor e têm a capacidade de ionizar o ar e torná-lo condutor de corrente eléctrica. A sua velocidade é a velocidade da luz (300.000 km/s). Qualquer núcleo radioactivo que emita radiação alfa ou beta tem a radiação gama sempre presente.

Julgo que foram elas as responsáveis pelas avarias causadas nos sistemas eléctricos e electrónicos dos robôs que operaram em Chernobyl e dos helicópteros que transportavam água para o arrefecimento dos reactores de Fukushima. Infelizmente num e noutro caso foi necessário que as pessoas se substituíssem às máquinas com o seu sacrifício próprio comprometendo a sua saúde a curto, médio e longo prazo.

As partículas gama percorrem milhares de metros no ar, são mais perigosas, quando emitidas por muito tempo e podem causar má formação nas células. Os raios gama conseguem atravessar chapas de aço de até 15 cm de espessura, mas são barradas por grossas placas de chumbo ou paredes de betão. A radiação gama tem poder de penetração considerável, embora também possa ser absorvida por alguns materiais, como o chumbo. 

Parece que na Ucrânia, pelo menos em Kiev, se podem comprar nas farmácias medidores de radiação com a mesma facilidade com que aqui em Portugal se compram medidores de pressão arterial.

 Os dados estatísticos em 2011 indicavam que a expectativa para os adultos nascidos até essa data relativamente ao ano 2050 no que diz respeito ao risco do padecimento de doença oncológica era de 33 por cento. Ou seja, uma em cada três pessoas sofreria de uma dessas doenças pelo menos uma vez durante a sua vida. Agora seis anos após o acidente de Fukushima a expectativa é de que 50 por cento, uma em cada duas pessoas, metade dos nascidos, venham a adoecer durante a sua vida. 

O futuro não é risonho com Almaraz aqui ao lado e com Castela imperialista e de má memória ainda tão perto. Lembro-me sempre que em 1975 morreu aqui ao lado um ditador fascista responsável por uma Guerra Civil sanguinária que defendeu uma tese na academia militar que frequentou cujo tema era a invasão de Portugal. 





quinta-feira, 2 de março de 2017

Catherine Ribeiro - Je t'écris de la main gauche



"Je t'écris de la main gauche
Celle qui n'a jamais parlé
Elle hésite, est si gauche
Que je l'ai toujours caché

Je la mettais dans ma poche
Et là, elle broyait du noir
Elle jouait avec les croches
Et s'inventait des histoires

Je t'écris de la main gauche
Celle qui n'a jamais compté
Celle qui faisait des fautes
Du moins on l'a raconté

Je m'efforçais de la perdre
Pour trouver le droit chemin
Une vie sans grand mystère
Où l'on se donnera la main

Des mots dans la marge étroite
Tout tremblant qui font de dessins
Je me sens si maladroite
Et pourtant je me sens bien

Tiens voilà, c'est ma détresse
Tiens voilà, c'est ma vérité
Je n'ai jamais eu d'adresse
Rien qu'une fausse identité

Je t'écris de la main bête
Qui n'a pas le poing serré
Pour la guerre elle n'est pas prête
Pour le pouvoir n'est pas douée

Voilà que je la découvre
Comme un trésor oublié
Une vie que je recouvre
Pour les sentiers égarés

On prend tous la ligne droite
C'est plus court, ho oui, c'est plus court
On ne voit pas qu'elle est étroite
Il n'y a plus de place pour l'amour

Je voulais dire que je t'aime
Sans espoir et sans regrets
Je voulais dire que je t'aime, t'aime
Parce que ça semble vrai"





quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Viva a Cumbia

A frase é a seguinte: Viva a Cumbia! Posso pedir o disco? (...)
O disco é a Daniela do Tommy Rey! 
E quero dedicá-lo à nossa querida Daniela que não tendo biblioteca, nem percebendo nada de finanças, hoje lançou um livro sobre as quintas-feiras e os outros dias. Tem 600 páginas e lê-se dum fol'go. Diz ela que é para prestar contas à vizinhança. A Daniela que ainda é melhor que a Mariquinhas na economia da Casa escreve com a agilidade de quem sabe trepar ao coqueiro. Como ela iria longe se se dedicásse à política. 
Beijinhos Daniela, e parabéns, pena é tares tão magrinha filha, até parece que tens a bicha solitária.

  



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Li que havia um Museu de Música Mecânica no Pinhal Novo em Palmela.

Não sei porque deixei o jogo do berlinde. Lembro-me que de um dia para o outro deixei de jogar e foi tudo. Entreguei os berlindes que tinha a miúdos mais pequenos que não tinham nenhum ou que só tinham bilas de plástico, daqueles que traziam um chupa-chupa de pasta de açúcar branco, listado de cores vivas, no espêto do gito.

Os meus berlindes também já eram um acumular de heranças de outros rapazes mais velhos alguns deles que nem sequer conheci: 
Os berlindes do filho da Prima Zulmira que foi para o Canadá e que eu só vi uma vez já homem casado quando passou por Lisboa para ver os pais. 
Os berlindes do António César da D. Adelaide, vizinha do 12.
Os berlindes dos sobrinhos da Jigi que eram abastados e viajavam pelo estrangeiro e tinham alguns enormes que pareciam planetas ou estrêlas e faziam abafadores como mais ninguém tinha... 
Tantos jogos se podiam fazer com os berlindes. E tantas outras coisas: as jóias da coroa do rei mouro; as pedras preciosas do tesouro enterrado dos piratas; os sistemas solares para lá de Krypton... 


Li que  havia um Museu de Música Mecânica no Pinhal Novo, em Palmela. Aqui fica a Máquina de Berlindes de Wintergatan como sugestão para o novo museu.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Nunca entendi muito bem as pessoas que publicam as suas fotos antigas. Será por nostalgia? Será por vaidade? Será por legitimação de algum paraíso perdido de si mesmos.


Nessa altura os autoretratos não eram para enviar a outros, eram antes uma maneira de olhar o espelho, de perguntar quem é aquele que ali vejo.


Nessa altura o auto-retrato fotográfico era em papel e não se chamavam "selfie".


O álbum de fotos.

Na altura pintava a óleo tons sombrios de azul e verde esmeralda. Nas pinturas fazia uma assinatura cursiva vagamente arabizada e a minha auto-imagem tinha dificuldade em se consolidar. Comecei por isso a guardar fotos dispersas neste álbum e pintei-lhe a face.





Schubert interpretado por Sviatoslav Richter Sonata D. 894


domingo, 29 de janeiro de 2017

Amochar.



Suportar carga ou tarefa.
 
Dobrar-se pela cintura no jogo-do-eixo.

Baixar a cabeça.

Submeter-se.

Esmorecer por desânimo ou por doença.

Ir para a base no jogo da bilharda.

Sentar-se em banco ou assento sem espaldar.

Podar radicalmente uma árvore.

Descornar ou cortar os cornos.

No final do ano de 1979 o "The Wall" dos Pink Floyd acabara de sair. Ao cabo de Janeiro de 1980 todo o libreto tinha sido decorado bem como as entradas dos instrumentos, os sons mais variados, os berros das vozes de comando e até os ruídos assustadores.



 Não sabia nessa altura em que medida era premonitória essa obra. De forma semelhante quando li "O Admirável Mundo Novo" do Aldous Huxley ou o “1984” do George Orwell imaginei que aquelas fôssem visões de antecipação e futuro. Pensei que identificavam o passado e até o presente coevo da altura em que os autores as tinham escrito. Acreditei até que uma vez materializadas eram obras que tinham o poder apotropaico de afastar a iniquidade que descreviam. Ignorância minha; de facto são obras de arte que identificam cânones de totalitarismo e opressão que se mantêm constantes ao longo da História. Nesse sentido como obras de arte singelas encerram mais conhecimento do que estantes cheias de ensaios e documentos de investigação. O facto de ser ficção não as desmerece nem as banaliza pois tem o poder dos antigos mitos que narram enredos complexos que cada época tem de reinterpretar. 


domingo, 22 de janeiro de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"Preto - História de uma cor" de Michel Pastoureau tradução de José Alfaro.

Em dia de inaugureixien do presidente de todos nós, queiramos ou não, coloco aqui o livro que já devia ter lido e que hoje comecei a ler pela manhãzinha. Coloco tambem o primeiro escrito ensonado do dia frio, ainda com o gosto amargo do café.
 Com a inaugureixien de Obama iniciei a etiqueta "Núvens" para classificar este tipo de publicação. Infelizmente não me enganei quanto ao tempo de Obama. Foi um tempo nebuloso sem dúvida. Agora parece-me que a treva se aproxima ameaçadoramente. Acho que desta vez não acertarei na minha intuição. Faço voto para que essa intuição esteja errada.



domingo, 8 de janeiro de 2017

Cantiga Dum Marginal do Século XIX


Não me pergunto onde vou
Os caminhos nunca acabam
Andorinhas de asa negra
Só vivem enquanto voam

De polícia já estou farto
Civil ou republicana
De presidente de estado
Bem fardado ou à paisana

Chapéu preto bem nos olhos
Residente em parte incerta
Trago bombinhas com mel
E os sentidos sempre alerta

Da natureza nascemos
Vivemos com a razão
Vendo luas e não pago
Imposto de transacção.









quinta-feira, 29 de dezembro de 2016