terça-feira, 29 de setembro de 2015

Dizer não ao TTIP - Tratado Transatlântico de Investimento e Comércio.



Querem assinar um tratado feio. 
Feito às escondidas, entre grandes empresas multinacionais e governantes venais e corruptos. Um tratado secreto do qual pouco se sabe e do qual nada esclarecem. Feito nas costas dos cidadãos.
Governantes que esquecendo-se do dever que têm para com os que os elegeram, representam os interesses financeiros das grandes corporações multinacionais, e o seu próprio interesse. Querem com a assinatura desse tratado apostar na desregulamentação que protege os cidadãos enquanto pessoas com direito à saúde, à informação, à livre escolha, à justiça, ao trabalho com salário digno, enfim à vida vivida em Paz.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Enquanto houver dinheiro para vinho não se compra pão!"


...jogavam à moeda.

Primeiro todos tinham de levar moeda na mão no máximo de três. Esticavam os punhos fechados e com o indicador em riste estimavam quantas moedas haveria no total das mãos. Feito o "pedido" por cada um, e não podia haver pedidos iguais, abriam as mãos e contavam as moedas. Se alguém tivesse acertado no total de moedas das mãos fechadas, saía da roda. Esse já tinha ganho o copo de vinho da rodada que o que ficásse em último pagaria. Os outros continuavam a jogar com a possibilidade de agora poderem levar a mão sem moeda alguma.


...e a meia manhã lá bebiam o seu copinho de vinho com uma bucha.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

a Vitor Silva Tavares

acabei por não te entregar os bonecos que tinha feito para ti
não podias ao menos esperar que de novo viesse a Primavera
tinhas de ir assim pelo Outono 
quando as castanhas já começam a aparecer nas feiras e nas praças
e brevemente haverá água pé...
vais afinal buscar refúgio em que outro subterrâneo?
comprei hoje terra para vasos
vou plantar as malaguetas cahombo que me trouxeram de Angola 
e eu semeei no início do Verão
vou plantar alecrim e alfazema e talvez uns loureiros
e vou plantar jasmim

Se os homens valessem como árvores
mesmo que nada mais fizesse
não conseguiria na vida que me resta 
plantar a floresta que tu eras.




quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Os três A e os outros dois que ficaram de fora.

Havia uma estranha música chamada Apache de um grupo musical estrangeiro chamado Shadows. Os apaches era sabido morriam sempre alvejados por balas certeiras disparadas pelo rapaz do filme. Morriam despenhando-se das altas pedras dos desfiladeiros ou estatelando-se contra a poeira do solo ressequido de desertos sem horizonte. Os rapazes o Adélio, o Adérito, o Albino, os 3 A íam ver esses filmes e desejavam poder voltar de África para os braços da rapariga, a namorada dos seus sonhos. Com eles haveria de correr tudo bem com os turras como acontecia ao rapaz do filme com os apaches. O problema era que todos tinham pedido para que a Adelaide lhes escrevêsse, e assim seria; uma vez que fôra autorizado pelo pai dela, a pedido da Dona Branquinha que era madrinha de guerra e que ficou de pagar o papel e o envio.




Também por essa altura estrearam um filme chamado "Os inadaptados" era um filme sem índios mas onde todos eram índios com chapéu de cowboy . Era passado no deserto e nele a rapariga que aparecia era aquela que diziam ser a mais bela mulher do mundo. No filme amarravam cavalos e tolhiam-lhes a liberdade laçando-lhes o pescoço com cordas amarradas a pneus à maneira dos sacos de areia de lastro.
A Adelaide não era a mais bela mulher do mundo, mas não lhe faltaram pretendentes. Depois de ter posto luto pelo Adérito, que morreu de desastre numa picada, ainda escreveu muitas cartas ao Albino até ele ser internado na casa de saúde, e os medicamentos o terem desinteressado de as ler, e ao Adélio que voltou à casa dos avós onde a vida sem as duas pernas lhe pareceu ser mais tolerável. A Adelaide acabou por casar com o Afrânio que é médico e que até hoje continua dizendo que aqueles anos de tropa foram as melhores férias da sua vida.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Victor Jara

Hoje que tantos caminham fugindo à morte e à injustiça a canção mantém a sua actualidade.


Ven, ven, conmigo ven,
ven, ven, conmigo ven.
Vamos por ancho camino,
nacerá un nuevo destino, ven.

Ven, ven, conmigo ven,
ven, ven, conmigo ven.
al corazón de la tierra
germinaremos con ella, ven.

El odio quedo atrás
no vuelvas nunca,
sigue hacia el mar
tu canto es río, sol y viento
pájaro que anuncia la paz.

Amigo tu hijo va,
hermano tu madre va,
van por el ancho camino
van galopando en el trigo, van

Ven, ven, conmigo ven,
ven, ven, conmigo ven.
Llegó la hora del viento
reventando los silencios, ven.




Victor Jara

Caminando, caminando
voy buscando libertad,
ojalá encuentre camino
para seguir caminando.

Es difícil encontrar
en la sombra claridad
cuando el sol que nos alumbra
descolora la verdad.

Cuánto tiempo estoy llegando
desde cuándo me habré ido
cuánto tiempo caminando
desde cuándo caminando.
Caminando, caminando.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

As Fronteiras

Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. mas só há duas nações -a dos vivos e dos mortos.
                                                                                                                Mia Couto

de "Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra"
Edição:2013
Editorial Caminho
ISBN: 9789722124508



Giji

Giji o meu pequeno tigre.


domingo, 13 de setembro de 2015

A delicadeza de Khatia Buniatishvili a tocar o Minuete da suite para teclado, 434 HWV, em sol menor de Haendel.



Suites são lições para instrumentos musicais neste caso para um instrumento de tecla. 
Minuetes eram formas práticas de danças palacianas de passos curtos e de cadência pomposa que uma vez desligados da dança se tornaram partes instrumentais no meio de outras peças musicais.
Handel escreveu esta suite para os praticantes e para os amantes de música. Este minuete que é uma parte instrumental independente e portanto desligada da dança bem podia ser para ensinar ao praticante e aos ouvintes o que é a delicadeza.
Khatia Buniatishvili ensina o que é isso de delicadeza, e bem precisamos nestes tempos tão conturbados e devastadores.

Sou Sírio!

Fui à beira do Mar...
e sou Sírio.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Não guardo o dia em que o meu pai morreu.



Não guardo o dia em que o meu pai morreu. Nunca me demorei no dia e faço por o esquecer. Ao lembrar alguém que seja por um dia de festa e não por um dia de luto. Lembrar-me-ei inevitavelmente, de momentos de dor e desgosto, mas será porque foram ultrapassados e houve um futuro comum.
Quero saber que foi no início de Setembro e nada mais do que isso. 
Nasceu em Agosto e morreu em Setembro.
O meu pai gostava do mês de Setembro. Em Setembro na sua aldeia por todo lado havia fartura de fruta madura: pêssegos, figos, maçãs, uvas, pêras, melões. Cada tipo de fruta com inúmeras variedades. Lembro-me de me levar pela manhã às figueiras de figos moscatel pretos e brancos. De me revelar entre o calor da tarde as videiras com  cachos tintos perfumados do jaqué, e dos bagos colhão de galo do moscatel. Tudo o que era muito doce era moscatel tivesse sabor almiscarado intenso ou desse gosto só uma ideia súbtil restásse. Era uma forma antiga de percepcionar o gosto do açúcar na altura em que ele era raro e o que havia era de menor intensidade por não ser refinado.
Nem sempre foram doces os momentos com o meu pai. Lembro-me de muitos momentos amargos que passei com o meu pai. À medida que o tempo passa relembro os bons momentos e vou relegando os maus para uma página do índice da memória. Está lá o capítulo e o episódio, mas é coisa que não se retoma por falta de interesse.

domingo, 6 de setembro de 2015

O papel que não me convém.


























O papel de oitenta grama
não me convém.
Fechar o olho esquerdo
não me convém.
A tinta diluída nas oitenta
não se contém.
A alegria com olho fechado
não vem.
A vista com a direita
não se detém.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O Ar.


"o fogo alto" de Joaquim Cardoso Dias

Joaquim Cardoso Dias é um poeta enorme. Fica aqui um poema breve escrito recentemente.
Joaquim Cardoso Dias chama a este tipo de poemas, poemas rápidos este poema é como um náufrago que sobreviveu e chegou a esta orla costeira.Nas palavras do poeta poemas como este tantas e tantas vezes acabam no lixo.  
A exigência que os artistas têm e neste caso particular os poetas têm quando olham o seu trabalho é do conhecimento geral . Basta lembrar o que Herberto Hélder foi fazendo com a sua obra publicada depurando sempre mais e mais, cortando, reescrevendo... É bem verdade que quem se dedique um pouco  a tentar escrever percebe o que Eugénio de Andrade queria dizer quando referia que por vezes andava uma semana para encontrar a palavra justa para poder terminar um verso de um poema. Os poetas são os mais severos críticos de si próprios. A sua sensibilidade se por um lado lhes dá o sentido do porvir, por outro lado traz-lhes o peso e o sofrimento de Sísifo. Ainda assim eles mais do que serem os que "Se vão da lei da Morte libertando" são os que da lei da Morte nos vão libertando. 
Por isto nada mais posso fazer do que expressar o Voto de que este poema possa prosseguir o seu caminho a par de muitos outros e chegar à publicação com tiragem alargada, assim também o deseje o poeta Joaquim Cardoso Dias.



























 o fogo alto

/a mesa suporta o peso de todos os gestos
 a barba por fazer o cotovelo do silêncio um prato de comida
 mas eu com as minhas pernas continuo a respirar/








                                                                                            Joaquim Cardoso Dias
                                                                                          in "facebook Setembro 2015"

















domingo, 30 de agosto de 2015

A fronteira - Atrás do arame.


Apanhando pêssegos num jardim europeu.


Valentina Lisitsa

Agora ao acordar apeteceu-me ouvir Valentina Lisitsa a tocar Rachmaninoff. Precisamente o que os passageiros de uma companhia de aviação holandesa podiam ouvir até há dias e agora já não podem. Valentina Lisitsa é ucraniana e parece apoiar na Ucrânia o lado que a  União Europeia e a NATO não apoiam. Assim baseados numa alegada reclamação de um passageiro cuja identidade se verificou ser falsa Valentina Lisitsa foi acusada de ter embaraçado o tal passageiro que ao ouvir a sua música ficou afectado pelas posições políticas de Valentina. 

Compreendo totalmente pois a maneira como ela nos brinda com Rachmaninoff é francamente ofensiva de tão descontraída e alegre. 
Espero que mais gente possa acordar brevemente para poder constatar isto mesmo.



Dormitando num jardim europeu.


sábado, 29 de agosto de 2015

Música do Mediterrâneo por uma vida melhor - Hüsnü Şenlendirici e Trio Chios



A canção de autor anónimo fala de um barqueiro e de uma jovem mulher que quer passar para a outra margem e que nada terá para oferecer em troca da boa vontade do barqueiro.

O espírito destes músicos entre os quais se encontra o Trio Chios e o clarinetista Hüsnü Şenlendirici julgo ser o oposto da realidade trágica que está agora a acontecer nas águas do Mar Mediterrâneo. São gregos e turcos que partilham um passado que se encontrou e desencontrou ao longo da história mas cujas feridas se esperam estar em vias de sarar definitivamente. 
Escolhi o tema porque nele se encerram sons característicos de Samarkanda no Uzbequistão, de Ascabade no Turquemenistão e porque o clarinete é um instrumento ligado ao Povo Rom que tem um som ora festivo ora profundamente dorido como o ney ou o duduk. 
Convém não esquecer que todos nós somos nómadas na génese da nossa ancestralidade. Como espécie evoluímos caminhando por natureza e por necessidade. Que a terra segura que hoje pisamos e julgamos ser nossa, amanhã pode ser um palco de destruição seja ela provocada pela vontade humana ou pelos Elementos da Natureza.
Também devemos ter presente na nossa memória que nos escassos 40 mil anos até onde podemos situar os antepassados dos quais nos julgamos herdeiros idênticos, as fronteiras naturais sempre foram motivo de evolução e desenvolvimento quando a vontade comum apostou em as ultrapassar. Ao contrário as fronteiras criadas pela organização social sempre foram motivo de guerra, de miséria e de retrocesso quando se criaram portagens, barreiras, muros, fortalezas e quando o ser humano decidiu ser predador de si mesmo.
 O vídeo termina com uma cúpula cheia de aves. As aves, neste caso os pombos, têm casa mas não têm fronteiras.

Mediterrâneo a Rota da Morte.


Carrêgo.


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Castanholas ou Trancanholas.

Homens com castanholas





























As castanholas mais simples eram duas talas de madeira de tamanho menor que um palmo. Resultavam das lascas de alguma sobra do entalhe feito em prancha ou tábua grossa de modo a ser encaixada em alguma viga ou em outro travamento qualquer. Após serem jogadas as talas umas contra as outras junto ao ouvido, escolhiam-se as mais densas e que soassem, com alguns cortes de mão acertada e navalha afiada, as duas farpas eram talhadas em objecto rítmico. Uma vez na mão competente seriam transformadas em instrumento musical. Com o dedo médio entalado pelas duas lâminas de madeira os tocadores sacudiam a mão em rodopios e ondulações à laia de asa de pássaro, ou de cauda de escorpião. Dos safanões ritmados com que sacudiam o ar tanto podiam soltar-se baques de coração entristecido ou crepitar estalos e estalidos em cadências de metralhadora.
Nunca soube porque lhe chamavam castanholas ou trancanholas. Parece óbvio que seriam castanholas por serem de madeira de castanheiro, ou por algumas adoptarem uma forma que parece a de uma castanha. Trancanholas porquê? Porque só ganhavam expressão trancadas entre os dedos do tocador? Não sei. 
Há iluminuras medievais que representam tocadores de trancanholas. O rastro das castanholas segue o Mar Mediterrâneo: Espanha, Itália, Países Balcânicos, Egipto, Turquia. Artefactos da antiguidade situam a sua origem na Fenícia, mil anos antes da nossa era. Mas o seu rasto pode ser traçado até à Índia. Ainda hoje existe na Índia um instrumento de nome Kartála que consiste num par de "talas" com que se marca o ritmo. Apesar de hoje em dia as kartálas apresentarem diversa formas e serem quase sempre de bronze, as formas mais arcaicas destas kartálas são semelhantes ás trancanholas e tal como elas, também eram feitas em madeira. Parece que "kartála" deriva do sânscrito "karta" significa mão e "tála" significa som.
Muito mais haveria a dizer sobre a maneira como se colocam nas mãos as castanholas e as trancanholas e como se pode variar a tonalidade com esse posicionamento. Como se pode recriar o efeito sonoro conhecido como efeito de Doppler. Dizendo de forma simples, recriar o som mais agudo que parece que se aproxima e o som mais grave que parece que se afasta, com a alternância de talas macho e talas fêmea. Ao ter numa mão fêmeas e noutra machos se consegue que soem a distância e o movimento. Mas isso de sons de fêmeas e machos é coisa para musicólogos ou outros ólogos.




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ana Hatherly II.


Ana Hatherly.


Sei do que Falo.

Há quem diga que ando a ver coisas que não são. Que o pão não tem nada a ver com isso. Que é mas é a minha cabeça... E que os confrades do pão (não perguntei qual a confraria) não dizem nada disso.
Então eu também lhes poderia dizer que sim, e que não, isto do Pão. 
Que é de  muita observação e conversa com quem o faz... que há padeiros na família. Mas isso há na de todos os que vieram da aldeia porque aqui há uns anos o pão era feito em casa e cozido no forno comunitário. Mas refiro-me aos padeiros que têm padaria à antiga, agora chamam-lhes panificações, daqueles que amassavam à mão e depois faziam a venda porta a porta pelas aldeias, onde as pessoas apesar de cozerem a sua broa de centeio ou milho a partir dos cereais que produziam, preferiam comprar o pão de trigo já cozido, ainda que o tal padeiro da minha família lhes vendesse toda a farinha de trigo que eles quisessem, mas eles usavam-na para as suas culinárias e preferiam o pão dele... safa que grande e cansativa era a volta das aldeias uma vez por semana por estradas de terra através da montanha.
Poder-lhes-ía dizer que ajudei o meu pai a construir um forno de abóbada com tijolo refractário, que era eu que acendia o forno e que avaliava a temperatura, que ajudava a minha mãe a amassar e a enfornar o pão... Que a tia Rita (irmã do avô) que era muito Católica muito Apostólica e muito Romana dizia às sobrinhas "Ai menina esse bico não, ponha dois rolinhos de massa em cruz."; "Por amor de Deus não faça uma racha se é de talhar é talhar em cruz." Mas isto da genitália feminina fica para depois.
Por agora a quem me disser que estou enganado eu apenas respondo: Têm razão Vossas Mercês. Vossas Mercês "é mais bolos" não é?...

 Bolo de São Gonçalo, Amarante, Portugal.